A mídia e a música

Discussões se entornam pelos becos de galerias urbanas, sobre o modo como se conserva a música hoje em dia ou ontem, um dia. Não, eu não sou tão velho.

Peguei pouco tempo da fase do vinil e pelas galerias que andei na cidade, vi e ouvi muita coisa, acompanhei a transformação do mercado musical e as trocas de mídias físicas e virtuais.

Peguei pouco da fase de presentes modestos que se davam aos amigos, ou a quem quisesse e tivesse interesse na música que eu tinha, ou que outrem a possuía. Seguia-se um modelo vinil-fita, um pouco mais adiante, o cd-fita, mas a fita-cassete ali, ao alcance de quem não tinha, o disco ou a grana.

Não mudou quase nada com a tecnologia. Continuo entregando meus presentes, as músicas que julgo necessárias e boas para os ouvidos do merecedor, porém, o modo como se faz, o processo da gravação mudou e muito.

Se eu tinha uma bolacha interessante a alguém, seja um pedido ou um presente, o ritual era diferente. Eu cuidadosamente colocava a bolacha preta embaixo da agulha, deixava passar o som para ouvir se estava tudo certo e pensava comigo, “olha o som que eu vou gravar…”, voltava a agulha para o seu lugar de origem e o sistema parava.

Com a minha caneta Bic esferográfica à mão, depois de destruir a embalagem da fita-cassete, introduzia mais ou menos um terço desta ferramenta e posicionava a fita no “ponto certo” do leitor de gravação.

Antes disso, eu sempre passava um Cotonete (ou haste flexível com algodão) no cabeçote, o leitor que viria a gravar o que eu preparava naquele forno. Posicionava a fita cassete e, com o dedo indicador e o médio da mão esquerda, pressionava os dois botões “play” e “rec” e com o dedo indicador da mão direita eu pressionava “pause”, que era para deixar a fita novamente, “no ponto”.

Cuidadosamente eu levava a agulha até a primeira linha do disco, enquanto isso, eu também pressionava o “pause” novamente, que era para “soltar” a fita, simultaneamente. Pronto, rolava o som.

Caneta e papel na mão, porque a fita cassete possuía um encarte que poderia ser preenchido com os nomes das músicas, ano, álbum ou artista que estavam sendo gravados. Havia fitas de 60 e de 90 minutos, dois lados (A e B), e eu perdia (ou ganhava) bem umas duas horas para terminar uma fita de uma hora.

Um detalhe importante era que eu ouvia as músicas inteiras, sem cortes e sem pular de faixa, eu curtia cada compasso da música e gravava na minha memória humana (a maior e melhor mídia de armazenamento) aquele mesmo álbum novamente, absorvendo mais detalhes, apreciando o seu encarte, desde as letras, passando pela arte do disco, até a ficha técnica.

Eu me lembro de cada prato de bateria que batia diferente, do baixo mais agudo ali ou um “riff” de guitarra mais grave aqui.

Continuo entregando meus presentes, só que agora de uma forma bem diferente. Gravo em “megas” ou “gigas” e não necessariamente em minutos ou horas.

A mídia mudou. Em vez de fitas-cassete, pen drive ou links de compartilhamento, para quem tem ansiedade no assunto. E claro, não nos esqueçamos do tamanho deste compartilhamento: ao invés de um disco, por que não uma discografia?

Mas ainda tenho o (menor) trabalho de selecionar os sons que podem fazer o consumidor da minha escolha “pirar” com o som. Não tem ritual e eu não ouço a música no momento em que gravo para alguém, pois o sistema não me permite esta prática antiga e fiel. O que eu consigo é apenas rapidez na conclusão da minha prazerosa tarefa.

Claro que em outros tempos eu tinha mais tempo disponível para não fragmentar o meu conhecimento musical, a apreciação da arte, do trabalho de artistas que demoraram e suaram muito para concluir aquele projeto que se transformara em uma pasta virtual e que é imediatamente armazenado numa mídia ou numa nuvem e entregue para um terceiro, muitas vezes, pouco interessado.

O mp3 player do celular cumpre bem o papel da apreciação da música. O que me preocupa é a dispersão da canção pelo modo como ela é comercializada, distribuída ou compartilhada hoje em dia.

A música sempre foi pirateada e comercializada, mas de um modo que surgisse o interesse das pessoas pelo artista ou pelo grupo que sempre trabalharam com prazer para o entretenimento do público, até um pouco ingrato, é verdade.

A adaptação das novas tecnologias ao mercado cultural não foi assim tão justa com o seu produto final, e menos ainda, mesmo que involuntariamente, com o seu público.

O que se propõe aqui é uma discussão que pode levantar prós e contras enquanto baixo mais um disco enviado por um amigo.

Paradoxalmente falando, a intenção é levantar a poeira deste tão populoso e poluído céu musical e fazer com que as pessoas não exatamente “pirateiem”, mas que compartilhem a música, seja ela qual for, seja lá como for.

Um comentário sobre “A mídia e a música

  1. Cara, essa discussão dá pano pra manga, huh? Acho que hj não rola de brecar a tecnologia, o que está ai veio pra ficar.
    Concordo com o Mill. A música não vai morrer, mas quanto à indústria musical, essa sim ou se adapta aos novos tempos (myspace, rapidshare, etc) ou vai morrer uma morte trágica, o que convenhamos não seria lá uma perda lamentável…
    abraço!

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