Dossiê: o trânsito da cidade de São Paulo

Todo problema tem uma raiz. Cabe a nós cidadãos descobrir onde estão as raízes de todos os problemas que afligem a megalópole, para que na teoria possamos escolher alguém para nos representar em suas devidas câmaras e palácios.

Os escolhidos cumprem com suas tarefas? Não. Cabe então a uma pessoa comum, como eu e você, abrir o dossiê, porque nos acomete o sentimento da obrigação, e se surtirá efeito ou não, só o tempo dirá.

Prováveis efeitos da militância cidadã: Limbo da rede, repercussão da imprensa (pouco provável) ou mais uma pequena campanha solitária em murais do Facebook.

Tudo bem, façamos a nossa parte: A reflexão. Mas atenção! No assunto a seguir, contém palavras proibidas para menores de 16 anos, exceto se for emancipado ou pagar propina para algum agente comum do Detran para que dê uma atenção especial ao caso.

Por que então o trânsito de São Paulo não anda?

Condutores conduzidos

Como disse, são problemas de raízes. Começa no Detran, o órgão que fiscaliza o fluxo de veículos e as pessoas que dirigem. Todos sabemos que o Detran vende suas habilitações e para isso, basta acertar antecipadamente com as Auto-Escolas.

As consequências são as piores, pois é dessa forma que surgem milhões de pessoas inaptas para a direção. Os agentes que ficam ao seu lado têm a sua própria escola de corrupção, pois o cidadão paulistano, ao chegar no local da prova, é logo induzido ao erro das provas práticas, para que seja assim facilitada a sua COMPRA do certificado mais cobiçado de todos os credos e classes sociais.

Excesso de veículos, rotinas de horário de trabalho, falta de investimento em transporte coletivo de massa, centralização do mercado de trabalho, falta de preparo da cidade para receber a instabilidade climática. Tudo isso contribui para que fiquemos parados horas no trânsito, porém, creio eu, que se o problema for corrigido na base, podemos dar um passo interessante à evolução do nosso deslocamento.

Motocas e motoboys

Os motoboys, aqueles que trabalham com o seu veículo próprio para sobreviver (ou não) aprendem a pilotar na quebrada, na periferia. A urgência da entrega é factual já ali, nas aldeias ilícitas, nos comércios dos pseudo-alucinógenos.

Não se generaliza, é claro, mas, as influências se permitem existir. Uma vez sentado ao cavalo de aço, a chance de um emprego nas avenidas é grande, mas, essas grandes avenidas tem regras e leis, muitas vezes ignoradas pelos despreparados compradores de habilitações. Logo, eis que surge um tentáculo do caos.

O Detran e seus corruptores não perdem tempo. Emitem habilitações para pilotos e motoristas, como se fosse a senha para o céu. E não?

Outros atributos indecorosos deste meio

Troca de placas são pagas com o famoso cafezinho de R$50,00. Cópia de chassi, compra de documentos, alteração de equipamentos nos pátios de carros apreendidos também são comuns neste mundo.

Certa vez, meu amigo teve o carro apreendido por irregularidades nos documentos. Ok, o carro foi apreendido com um sistema de som de invejar qualquer funkeiro e após a regularização total dos documentos, lá foi o nosso aventureiro resgatar o seu trio elétrico portátil e adivinhe! O carro estava pelado.

Não haveria carnaval na praia, pelo menos naquele ano. Não para Henrique, que investiu mais que o valor do próprio carro em alto-falantes.

Assim como eu faria, o rapaz questionou ao agente do pátio: “Eu tirei fotos do carro antes que ele fosse recolhido e tinha todo este sistema de som” – enquanto mostrava as fotos – “gostaria de saber onde estão os equipamentos” – o agente chamou outro agente, que chamou outro agente, que serviu um chá de cadeira ao reclamante, que recebeu um outro agente com vários papeis nas mãos e mostrando-lhe: “Caro, tem todas essas dívidas (?), o senhor prefere o seu equipamento ou vamos deixar este assunto pra lá?” Assim, Henrique, com seu olhar macambúzio, retirou o seu veículo, sem combustível e agora, silencioso.

Sem falar nas propinas de rua que são constantes. Quem paga propina é um idiota que foi persuadido a fazê-lo, por conta das sansões falhas que o estado propõe pelas leis trânsito.

O nosso código de trânsito requer reformulações de base, urgente, começando na escola, pois é lá que se deve aprender de verdade como um cidadão de trânsito de bem deve viver entre milhões de veículos e ruas.

A guerra civil das avenidas

Brigas de trânsito são constantes. Afinal, quem mesmo está preparado psicologicamente, intelectualmente e gentilmente para dirigir em São Paulo?

Seta é artigo de luxo. Usa-se o computador de bordo, o viva-voz, o piloto automático, mas nunca a seta. A troca de faixas com a seta ligada então, é uma transgressão absurda para quem está atrás, há quilômetros de distância. O sujeito se sente enciumado e não deixará o motorista ser feliz. Não naquela faixa alvo.

Manobrar para estacionar? Quem está atrás de você vai ficar admirando, até que você, mal preparado que está, ficará nervoso e errará a baliza, para assim, começar mais um episódio de estresse aguda, que resulta em 1, 2, 3, 4, 5 buzinas, até que você saia do carro, aponte o dedo na cara de alguém e isso se reverta em consequências.

A gentileza, a educação, o preparo, a não corrupção dos órgãos de trânsito e da polícia, pode evitar ainda mais significativamente, principalmente, os acidentes de trânsito. Que tal um documentário para melhorar o nosso cotidiano?

É claro que nenhum documentário e nenhuma reportagem como esta apontará as atitudes corruptas de base, porque é uma máfia até mesmo distante da imprensa. Mas vale cobrar uma investigação mais profunda para que possamos recomeçar, a partir de ontem, a reconstruir um novo código, com novas pessoas e novos motoristas.

E ainda bem que não se compra habilitação para avião… Será que não?

Um comentário sobre “Dossiê: o trânsito da cidade de São Paulo

  1. Belo texto meu caro… Mas o problema maior, creio eu vem do desejo de “liberdade”, enlatado da América Fordista, que o carro pode lhe proporcionar… fomentado por taxas de juros atrativas, respaldada na falácia de girar a economia e a industria, fora a sensação de “ter” um carro ser “melhor” que a de dividir um bom transporte público.

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