A epifania da reclamação

Eu, como todo paulistano, gosto de reclamar. Reclamo do trânsito, da condução lotada, das contas para pagar, por trabalhar demais, do sol, do frio e da chuva. Outrora, na minha time line do Facebook, contei, de 10 postagens, oito tratavam de uma reclamação, uma sobre alguma causa social e um post de alguém feliz. É assim a vida do paulistano nas redes ou ao vivo.

Quer começar um bom bate-papo com um novo colega? “Calor, não?” Ou num xaveco fora de hora, “muito frio aqui”. O fato é que, a reclamação é a bengala do cotidiano.

O mais interessante é quando as reclamações viram protestos nas mãos dos injustiçados. Uma arma boa para quem se sente subtraído, diminuído ou malatendido, seja por uma empresa ou órgão público.

As redes nos ajudam, órgãos de defesa do consumidor dão uma força, o que nos poupa de reclamações tête à tête, olho no olho, porque é difícil conversar com um ser humano ali na frente. É custoso desarmar-se, esclarecer a dúvida que ficou no olhar do atendido ou do atendente. A reclamação se tornou o suporte do cidadão que quer atenção, na hora!

Nossas reclamações possuem fundamento, como não? Quero os meus direitos em cima da mesa, inclusive, o direito de reclamar.

Não é à toa que a reclamação já movimenta o mercado, tanto que tem site especializado nisso. O Reclame Aqui é praticamente o jurista de qualquer um. Sem nenhuma apuração ou conhecimento de causa, expõe a corporação de bem (ou não) ao ridículo das queixas mais banais e sem sentido, tudo porque, “quanto mais cliques melhor” ou “quanto mais visualizações, melhor podemos nos manter” e outros pensamentos despreocupados com o bem-estar da relação humana. Acertam muita vezes, bem como erram em números absurdos, por nada, por não fazerem questão de filtrar uma indignação. É quase que uma gincana para o internauta solitário.

Pois bem, aproveitando a tendência do rumo da prosa para o SAC, a reclamação, não seria o último recurso da negociação entre as partes? Ouvir, procurar compreender as regras e as condições de quem o atende e vice-versa, não é um atalho grandioso para a utilização do último recurso? Claro que é. Pena que não conhecemos os tais valiosos recursos.

Banalizou-se a reclamação. Derrubamos o nível da boa conversa entre os semelhantes e perdemos a compostura diante de um atendente ou de um atendido, o que se transformou na melhor maneira de nos sentirmos superior àquela criatura que está à nossa frente ou do outro lado da linha.

Nós gritamos, batemos o pé, xingamos e rebaixamos toda a árvore genealógica do nosso alvo humano, tudo pelos nossos direitos, e, claro, sem perceber, resolvemos os nossos problemas… Do jeito mais difícil. Sem gentileza, tudo é mais difícil.

Bem-aventurada a alma que fica atrás do balcão ou do outro lado da linha absorvendo as micropartículas de saliva raivosa de alguém, que na verdade, só quer atenção.

O atendente, compromissado que é com os seus boletos, não ultrapassa os limites que as regras da corporação o impõe.

Relata o bê-a-bá da cartilha para o ofensor, mostra-se prestativo, induz-se até o seu limite para poder eliminar o poderoso chefão à sua frente (segundo ele, é o mesmo que paga o salário do opositor), mas mesmo assim é atacado, desrespeitado, queimado verbalmente em espaço público, por conta de um desequilíbrio que não o pertence.

Do outro lado do ringue, o atendido, que se deslocou em busca de um atendimento anônimo, rápido, indolor e de resultado feliz, depara-se com o monstro da má-vontade que poderá comprometer o seu dia. E este que não possui ou não encontra o recurso do desarme, a gentileza, responde à altura e se degladia com um oponente enfraquecido pela cólera inútil, que lhe roubou o primeiro respiro do dia.

Só precisamos de elementos mais simples no nosso cotidiano: Mais gentileza, mais “por favor”. Mais “com licença”, mais sorriso, mais “bom dia, boa tarde, até logo, tchau”. Mais critério entre as corporações. Mais justiça no atendimento, mais recursos para o atendente, mais café para o atendido. O bom senso é transformador. O paulistano merece e agradece.

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