A quebrada

Eu explico o que é quebrada e residi-la na cidade de São Paulo. “É longe”. Isso é o que dizem quando você fala que mora lá.

Aos poucos vai dando vergonha e você acaba falando que mora num lugar próximo dali, num bairro mais conhecido como Interlagos (Grajaú, Pedreira) ou Itaquera, quando o assunto é Guaianazes.

Depois da fase da adolescência, você aprende que isso tudo é besteira e você até que mora bem, em alguns aspectos.

Ninguém fala por ninguém, exceto as mães, que muitas vezes preferem se calar a se ex(indis)por diante de outras pessoas que possuem os mesmos direitos e as mesmas condições concedidas à sua família, ainda que ilegalmente.

A escola é do “guverno” e tem que “dar graças a Deus, por estar estudando”. Não, os alunos não agradecem. A escola nem é um lugar tão bom assim. Ela tem uma aparência triste e pouco ensina, exceto, as malandragens de sobrevida de quem é da quebrada. Um exemplo? Fazer duas refeições no horário da merenda.

Outras vozes reverberam: o rap dos manos que sonham com o sucesso e com ouvidos dispostos no baile, e o piche, o esboço do rascunho mal feito de um grafite. Mas pelo menos, a gente sabe quem é quem. É o grito visual “da” e “na” quebrada, cujos muros servem de rascunho para chegar ao Centrão com “procedência”.

Fim de semana de criança: Acordar cedo, fazer uma pipa, “guentar” uma linha da laje, fazer uma rabiola (se tiver sacolinha plástica), correr com a linha na mão e mendigar um cerol para o grandão.

Os braços torram no sol das férias. O barulho nas ruas se mistura entre os bares, a criançada, os carros com som alto, as motos gritantes e as mães falantes. Tudo em harmonia.

Ao jogar futebol na rua, entre os carros velhos e as motos que cortam a rua de terra, o ideal é que não se use as miúdas havaianas que já duram mais de cinco anos em seus dedos empoeirados. Aquele preguinho enferrujado é o que sustentará por mais tempo a correia da sua sandália azul clara.

Cuidado com a bola no bar, o dono pode não gostar e atirar com seu trezoitão enferrujado para o ar. A rapazeada que degusta uma caninha, racha da cara do menino enquanto ele chora. A mãe grita o seu nome, recolhe o fedelho reclamando e puxa a orelha do garoto. O corretivo popular ao alcance do corpo.

A vida de adulto: Entrar as oito no trabalho, mas sair de casa às 5h30. Busão lotado, motorista estressado, trajeto forçado, acidente de carro, “to atrasado”, choveu, bueiro alagado. Chefe chateado.

Fim de expediente. Pés molhados, boteco lotado, atração garantida. Rapazeada reunida, uma cachaça para abrir o apetite e esquecer aquele dia. Outro dia, tudo de novo.

Fim de mês: Iogurte do bebê não vai caber, leite em pó que o posto de saúde recomendou, não dá para levar, vamos devagar.

Como assistir à novela ou às alienantes domingueiras sem uma TV que todo mundo tem? Bora para loja, que com apenas um documento a gente leva. A presidente falou que somos emergentes.

Tráfico de drogas: O pai, a mãe, a avó e o vovô, só desejam que o seu pequeno nunca se envolva com “os meninos da rua de baixo”. O menino cresceu, é adolescente, está na escola, mas lá ninguém fala nada para ele.

As rédeas vão ficando frouxas e Deus está presente na linguagem da família. Um entra e sai danado, ninguém briga, ninguém discute, tem biqueira que é no boteco mesmo.

Tem farinha, tem fumo e tem pedra. Tem para todos. A polícia se irrita com a molecada que fica em volta, bate no maconheirinho ou humilha a mãe. Faz o acerto e vai embora. Mês que vem, estão aí de novo. Salário baixo e despreparo. O ódio mútuo une e gera renda.

Comunidade é sinônimo de coletividade. “Zé, bora pegar uma tauba ali?” “Fulano, meu filho passou mal a noite toda, vamos levar ele no posto!”

A sociedade é paralela àquela que o Estado cobra imposto e finge que a mantém, mas que faz questão de ignorar a sua existência. O mais indignante é que todo mundo vota no mesmo cara, de novo. O coração dessa gente não cabe no próprio peito, talvez por isso, seja tão fácil de manipular.

A economia vigente se baseia em igrejas, bares (alternadamente), cabeleireiros, transporte coletivo (lotação – não exatamente com a proposta de coletividade), biqueiras e pequenos mercados.

A atuação dos profissionais autônomos é constante como o pedreiro, o tiozinho da perua e o da mandioca com banana. Há um ciclo que é quase o suficiente para manter a economia local. Se fosse seria ótimo.

Essa é uma visão geral e superficial, do que é morar na quebrada durante 30 anos. Eu senti que quem mora na quebrada tem um déficit social que nos é imposto.

Somos rotulados, geramos desconfiança, oferecemos ameaça quando presentes nos grandes centros ou entre pessoas de nível “elevado”. O primitivismo periférico incomoda e nos rouba o respeito.

Continuo chamando os camaradas de “mano”, conversando com tiozinhos aposentados e roubados por um Estado que não se importa com essa gente que busca um lugarzinho ao sol da lage.

NUNCA me esqueci e nunca vou esquecer de onde eu saí. Porque lá não se faz uma pessoa ser menor.

Quando eu saía de casa com a mama para o trabalho na madrugada, ainda criança, é que eu via que o ser humano é uma carcaça viva como outra qualquer, ao ver um corpo no chão em cima de uma poça de sangue fresco e uma marmita aberta com comida, jogada do outro lado da rua.

A ROTA ao lado, nos olhando feio e transmitindo a mensagem: “não faça perguntas, olhe ao seu redor, você não existe”. Chocou?! Você não sabe nada.

    Guacuri / Jardim Santa Lucia / Jardim Santa Amélia / Pedreira – Foto 
do autor tirada da varanda da sua ex-residência

4 comentários sobre “A quebrada

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