A ditadura civil de cada dia

Eu que nasci nos anos finais da ditadura militar, percebo que hoje em dia ainda sobra um pouquinho de ditadura no sangue, talvez no gene, de cada brasileiro.

A perseguição de um indivíduo a outro, seguida da proibição aleatória do que o incomoda, leva a um surto involuntário de autoritarismo sobre algo ou expressão que o estorve. É a ditadura civil de cada dia. Uma patologia social e sem valor coletivo.

Já não basta um paulistano comum olhar um fardado com desconfiança, com medo de levar um tiro ou ser ameaçado pelo simples fato de existir, atravessar uma rua ou acender um cigarro (ainda que industrializado).

Este cidadão comum ainda é reprimido e compelido muitas vezes por um outro cidadão que o olha de soslaio, com o objetivo de recriminar.

“Não pode”, uma frase que perfura os tímpanos com uma certa força e que atinge o peito e o cérebro, liberando, desnecessariamente, uma adrenalina adormecida, uma vez em que, por obtenção e uso de pseudos poderes, direitos ou espaços, um indivíduo comum e com os mesmos direitos, repreende outro por se vestir de uma arrogância que só ele não percebe.

Um exemplo disso, com base nesta matéria do Caderno 2 do Estadão – Internet, o cidadão procurou o Google, o Ministério da Justiça e o Fórum da Infância e da Juventude para reprimir um vídeo humorístico publicado somente no Youtube (canal de vídeos em que qualquer pessoa tem acesso e que pode simplesmente, a partir de um clique, sair do canal e escolher outro vídeo ou outro site de qualquer que seja o conteúdo) pelo canal do Porta dos Fundos, do já popstar humorístico Fábio Porchat.

O cidadão alega que o vídeo possui um conteúdo impróprio para ele e sua família, de acordo com a sua visão de vida, suas regras, que o leva a impor a sua ditadura. Sim, uma ditadura pessoal e intransferível fez um homem agir contra um vídeo humorístico por conta de uma “rola”, palavra que incomodou seus princípios.

Outro exemplo, muito pessoal, voltando do trabalho, dois garotos entraram no vagão do Metrô – cada um com um cavaquinho – e começaram a tocar. Nem chegaram a cantar. E eu que até achei aquilo bonito, porém, senti-me incomodado.

Acionei o serviço de denúncia do Metrô via SMS e dedurei os garotos que “perturbavam” – ainda não sei o quê e nem o porquê -, o autor arrependido deste post. Em menos de cinco minutos, uma segurança do metrô estava exatamente na porta do vagão do trem na estação seguinte e abordou os garotos repreendendo-os.

Na hora, percebi o quanto o serviço funcionava bem, mais notei também o quanto a ditadura civil estava incrustada em minha razão ilógica urbana.

Lembrei-me de minha viagem a Buenos Aires, onde, no Metrô, encontrei um grupo de jovens portenhos tocando rabeca dentro de um vagão e pedindo as suas contribuições, e que eu, enquanto turista, deliciava-me com aquilo. Nem preciso dizer como me senti depois.

Além deste poder indireto de repressão, há aqueles do cotidiano. O homem que exerce o seu “poder” (por ele mesmo adquirido) sobre a mulher (que considera sua, claro) e vice-versa, ambos com a mesma arma, a chantagem afetiva, e ainda sem falar da violência física.

Existe a ditadura do mercado de trabalho, tendencioso e constrangedor, e mesmo configurando o assédio moral, passa despercebido em seus escritórios e até mesmo em entrevistas de emprego.

A ditadura cultural também existe e ela esnoba, discrimina e despreza aquele indivíduo que não conhece autores, livros e diretores, considerados pelos repressores intelectuais (e só por eles) como uma necessidade humana, o “saber-tudo”, porque quem não sabe tudo, em sua verdade, não sabe nada.

Há até a ditadura gastronômica que, dependendo do que você come, você poderá sofrer em um limbo moral que poderá levá-lo a uma “mini-exclusão-social”, porque a fome, neste caso, tem estética.

Em tempos modernos, há ainda a ditadura digital, que prega peças em quem não conhece os dígitos de um computador, ou até mesmo, em determinado meio, atinge quem não usa determinada “marca” devidamente “reconhecida” no imenso e sem fronteiras mundo das conexões.

A farda reflete aquilo que somos todos os dias e temos obrigação de nos policiar (op’s). Para uns a corrupção lhes deleita o ego. Para outros, a ordem e a punição os eleva ao Santo Graal. Purifiquemo-nos.

Por que não nos desarmar em prol da coletividade e tolerância? O espaço e o desejo são os mesmos de todos, transformados em vaidades imagéticas diferentes, e só. Desarmar-se, é a regra do novo clico.

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