Ninguém morre na véspera

Certa vez, voltando do trabalho (após, claro, ter trabalho além do devido e do previsto, entre necessidades e leis, para resolver “urgências”) me peguei pensando que deveria ter entrado em contato com uma pessoa de forma “urgente”. Numa fração de segundos eu já havia decidido como faria: uma mensagem no Facebook pelo celular, o instrumento global que fica ligado direto, 24 horas, a favor da “urgência”, daquilo que não pode esperar.

Rapidamente, após a decisão, veio-me outra (porque é assim que funciona a vida urgente: entre pequenas sentenças mais rápidas que o próprio desejo de solução imediata) e então, pressionei o freio mental bruscamente.

Lembrei-me da deliciosa leitura que me aguardava na mochila e logo desisti do ato desumano, porque percebi que não se tratava exatamente de uma atitude necessária (palavra que deve ser oriunda diretamente da “urgência”) e me entreguei à viagem literária, mesmo com a dislexia e a dificuldade de me absorver comigo mesmo.

Naquele momento, nada era urgente. A prioridade mesmo era o meu descanso mental, que, já dizem os neurocientistas há muito tempo, faz um bem danado ao corpo e ao cérebro.

Partindo do léxico, numa compilação de dicionários e sinônimos, resume-se que este substantivo se trata da qualidade ou condição, a necessidade que requer solução imediata; a pressa, a situação crítica ou muito grave que tem prioridade sobre outras; emergência.

Então o professor Houaiss nos situa com um exemplo: “o médico atendeu a muitos casos de urgência”. O valor do significado desta palavra em pauta, na verdade, deveria estar associado ao, por exemplo, mesmo valor que possui uma emergência médica. Ora, o moribundo tem sim, prioridade. O passo correto para a compreensão entre significado e signo.

Na sociedade atual, em que se prioriza mais o corporativismo em detrimento das relações humanas no geral, a “urgência” é palavra de ordem, mesmo que banalizada.

Como num coro ela é quase cantada ao mesmo tempo por pessoas que servem uma instituição ou milhares delas no mundo todo. Um coro mecânico, automático, industrial.

Nossas relações “afetivo-familiares” também tem prioridade, pois não é de hoje que estão, há muito tempo, colocados em segundo plano, em prol de uma vida terceira.

E por que dizemos tanto que a vida é curta? Porque temos que dar conta das urgências terceirizadas. E até por uma questão de ego ou de exigência, percebemos que algo é urgente porque o cliente quer, porque o chefe quer (um motoboy acaba de morrer nesta leitura) ou porque o professor quer.

E agora que a urgência desconceituada invadiu a nossa casa, é também porque a esposa quer, porque o marido quer, porque o filho quer e porque a mãe quer.

No cotidiano corporativo, a atenção, ainda a ser dispensada, por causa da exigência de rapidez nas respostas, já conta em seu desfecho, com sua qualidade comprometida, ou seja, esta “atenção” que tornar-se-ia qualitativa, agora foi prejudicada, tomando corpo superficial, atônita e sem garantia alguma de missão cumprida para o atendido.

A fome é urgente, mas não a “vontade de comer”. O infarte do miocárdio tem que ser tratado como emergência, mas a qualidade, a maturidade e a saudade podem esperar mais um pouco, porque é do tempo que ambas se sustentam. E como já dizia mamãe “ninguém morre na véspera”.

 

2 comentários sobre “Ninguém morre na véspera

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