Violência urbana: a chaga da exclusão

 Na verdade, este post é uma carta a um amigo, vítima de assalto aos seus equipamentos de trabalho, que me tocou quando disse que “…não faz diferença nenhuma se um cara que me roubou morrer, por acidente ou pela polícia…” e que “…o assalto é uma questão de opção… vender bala na rua ninguém quer? Trabalhar ninguém quer?” – daí meu pensamento foi longe, tentando atingir a raiz, com o peito apertado e pensando em violência como uma doença grave. Se você ler e discordar, eu posso concordar com você, mas o que vale é pensarmos juntos. Bora lá?

Caro amigo,

Refleti sobre suas palavras, cujas agruras são também as minhas. Somos caóticos porque deixamos de ser selvagens para sermos desiguais, mesmo no que diz respeito às condições mais básicas da vida.

Veja: alguns comem, outros não. Erros longínquos nos fizeram perder o equilíbrio sobre a vida. O discernimento que era naturalmente intrínseco à condição humana foi derramado como a água de um caminhão que o sol consome na estrada quente e deserta, em plena crise hídrica.

Culpa de um humano, porém esta culpa é tampouco humana. E cá estamos pagando pelo serviço mal feito.

Por isso passei algumas noites rascunhando esta aparição rasa – de alguém que pouco se inteirou academicamente – sobre suas palavras daquela noite de ano novo, que me deixou de peito apertado, por razões talvez intangíveis, sendo uma delas, a crença no ser  humano.

Porque Rousseau disse um dia que “o homem nasce bom, a sociedade o corrompe”.

E quando você me disse que “…não faz diferença nenhuma se um cara que me roubou morrer, por acidente ou pela polícia…” e que “…o assalto é uma questão de opção… vender bala na rua ninguém quer? Trabalhar ninguém quer?” eu não tinha uma resposta pronta, mas eu sabia também que haveria um caminho para encontrá-la, mas não a encontrei.

Nós, periféricos que somos de nascença e que já sofremos todo o tipo de violência, inclusive do Estado, podemos juntos, creio eu, encontrar respostas no mínimo cabíveis para compreender o que passamos e o que passam os nossos semelhantes. Eis, a seguir, a minha saída de bola.

A violência urbana é uma chaga. Uma doença que não pode ser tratada como uma virose, em que se aplica uma droga comum ou um atestado médico causador de efeitos psicossomáticos.

Este é um tipo de doença grave que mata, aleija, exclui socialmente, não só o seu portador, mas também o seu próximo. Além disso, é altamente contagiosa.

violência

Como as hepatites ela pode se dividir em vários tipos: A, B, C, D, etc. Há a violência urbana cometida entre indivíduos de qualquer classe social: Assaltos, latrocínios, roubos e agressões físicas.

Há aquelas que não exercem o contato físico e que pertencem às classes de poder, mas que podem deixar sequelas desastrosas e até irreversíveis: assédios morais – no mundo globalizado costumam estar presentes em empresas, entre subordinado e chefe (nunca acontece com líderes) -, racismo, arrogância e discriminação de classes em geral. Esses são alguns dos tipos de manifestações de violência urbana secundárias.

Há um primeiro tipo de violência urbana, causadora de todas as outras manifestações agressivas.

Atos silenciosos que pairam no cotidiano do cidadão e que é proferido por uma máquina doente chamada Estado, que silenciosamente, a partir de suas omissão e corrupção, aplica a exclusão social por intermédio de seus ferrões peçonhentos que invadem a vida de um indivíduo, de modo que ele não sinta e não perceba a picada venenosa.

O homem violento é como o hospedeiro. Este, cegamente possuído pelo mal, deseja então, a partir de sua exclusão, aplicar o que o domina, para que se sinta aliviado, incluído, de forma igual – em sua crença momentânea – a outro cidadão com os “mesmos direitos”, porém, dolorida, a outrem e a si. Sua ação é utópica e torpe, mas ele não sabe.

Este mesmo homem que não nasceu mau e que foi acometido pela chaga que perturba a sua natureza social.

O exemplo comparativo, ainda que raso, é o de países super desenvolvidos, que aplicam em sua política, a inclusão e a oportunidade de forma igualitária – pelo menos aos serviços básicos de direito do cidadão e dever do Estado – sem deixar de ser capitalista, de mercado ativo.

São as pílulas de socialismo na qual disse um dia, Antônio Cândido.

Nas capitais de países nórdicos, por exemplo, um crime demora muito tempo para ser registrado, o que leva os cidadãos daqueles países, iguais que são (ou próximos disso) em sua condição social, a serem mais “descuidados”, distraídos ou desatentos com os seus pertences de consumo, e que damos tanto valor quando nos subtraem como carro, carteira, telefone, casa, etc.

Quem afirma que o ato violento é uma simples “escolha”, afirma indiretamente que cidadãos nórdicos são superiores, por não escolherem a prática do crime. E então, sugere que o brasileiro, mestiço que é, “escolhe” ser violento. Perigoso isso.

Principalmente por se tratar de sociedades distintas em seus tempos e modos de construção, climas e sua formação comunitária, uma vez que este mesmo povo, gelado e bárbaro em sua história, hoje vive de forma justa, o que nos prova que um povo ou um indivíduo são passíveis de recuperação, salvo exceções que sempre existirão, dada a instabilidade da razão humana.

A cura da doença existe e está ao alcance de cada indivíduo ou de quem está no poder, quando se trata de uma sociedade.

O ladrão e o roubado (o mais prejudicado, claro) são vítimas da mesma doença: a bárbara e letal violência que se inicia em silêncio.

E como violência gera violência, a cura se inicia pela razão e não pelo recurso violento que o Estado propõe e muito menos pelo ódio do lesionado. É preciso cautela e discernimento nestes julgamentos.

Uma criança que trabalha vendendo balas no semáforo é tão violento quanto a sua prática de furto. Há implícita a ausência do Estado.

A polícia existe para manter essa ausência praticada pela “empresa” a qual ela trabalha. O Estado violenta e o soldado contém as vítimas, da pior forma.

Que precauções, nós, “cidadãos de bem”, expostos à chaga da violência urbana, devemos tomar para que não sejamos vítimas, de surpresa, deste terrível e truculento mal que assola a humanidade, que sem dúvida é uma das doenças mais graves do mundo?

Vide uma epidemia espetaculosa chamada “guerra”.

Falando em paliativos, o que pode abrandar a violência cotidiana, se não os abusos da gentileza, da igualdade, do respeito e da fraternidade?

Sem dúvida serão os primeiros grandes passos rumo à auto-proteção, à precaução, que, como uma camisa de vênus, poderá nos proteger do invasor indesejado.

É preciso respirar fundo todos os dias, para que a violência não saia de nossas próprias palavras.

É preciso se desviar dos olhares maldosos, que são como munição disparadas ao léu. Mas não depende só de nós, cidadãos comuns. É necessária a intervenção das lideranças que são avalizadas por nós.

Pois então meu estimado amigo, eu compreendo a sua dor. Já fui assaltado assim como abordado pelo Estado, ambos violentamente.

Talvez não tenha sido tão grave quanto o seu caso. Mas foi revoltante. Porque eu não posso concordar que me subtraiam de maneira alguma, já que pelo menos para mim, a vida não me presenteou com uma realidade burguesa.

E se tivesse me presenteado, provavelmente não daria tanto valor à minha batalha, mas sim, somente aos meus objetos de consumo.

Quando me roubam, eu sinto como se jogassem no lixo todo o meu esforço para adquirir algo que valorizei. É foda. Mas tenho pensado muito nisso e me perguntado: Somos vítimas de quem? Quem é o agressor?

O Marcelo Yuka (ex-baterista do O Rappa e candidato à vice-prefeito pelo PSOL junto ao Marcelo Freixo na cidade do Rio de Janeiro), que agora não anda por ter levado um tiro na coluna durante a apresentação da banda, neste documentário abaixo, diz, “eu não fui vítima de um cara com uma arma na mão, mas sim de todo um sistema [social] que não funciona”, e eu o compreendi, levando-me a redigir este texto para ti.

 

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