Gente feia? Não, gente oca!

É comum ouvir comentários que incluem a expressão “gente feia”. Às vezes esta manifestação se refere a pessoas de um ambiente, uma cidade, um bairro, uma festa ou um meio social qualquer. É uma máxima preconceituosa e excludente, e vem carregada de ignorância e feiura.

Não frequentar um espaço, não cumprimentar, evitar uma pessoa sem ao menos conhecê-la, é sim a atitude de um feio. Não o contrário.

O ato de se esconder atrás de um preconceito babaca é o que quebra o espelho em razão de um vazio generalista, que se expande entre as pessoas, pois se trata de um conceito barato, desprovido de qualquer reflexão sobre o próximo, aquele que exerce sua função de compor o mundo assim como você e eu.

Imagine ouvir quase sempre, “Diadema? Só gente feia!” Mas não nego a brincadeira de dizer que em São Paulo, há locais onde se deve evitar de ir: Osasco e Guarulhos. Pela dificuldade do acesso e pelo caos da desigualdade que sangra os olhos de qualquer visitante.

E digo o mesmo do Morumbi, porque sempre imagino que algum rico poderá cuspir na minha cara ao perceber que talvez eu não seja usuário de carro caro ou de grife trivial. Tudo brincadeira, conversa de bar. Nada aqui se generaliza.

Há quem se esforce ao máximo para ser chamado de “feio”. É o sujeito que escancara a sua limitação por meio de suas atitudes.

O clube dos mal-amados, dos corruptos e corruptíveis, dos grosseiros, dos arrogantes e dos ocos.

Não esqueço o caso da professora da PUC no aeroporto que expõe um passageiro de bermuda como um possível “pobre-feio”. Lamentável.

Um exemplo de pessoa feia? Luiz Felipe Pondé, um filósofo (VEJA BEM!) que é colunista do jornal Folha de São Paulo.

Tire a sua prova aqui, onde ele destila a cultura conservadora do “conforme-se com isso se alguém o faz inferior por sua aparência” e que “todo ‘feio’ tem inveja e ódio dos belos e bem-sucedidos”, misturando políticas público-sociais de oportunidades iguais com o seu inconformismo de perceber um pobre ou um feio frequentando o mesmo lugar que ele.

Outro exemplo, igualmente tosco, é o dono de um site que perde tempo fazendo esse tipo de brincadeira idiota simplesmente para “viralizar na internet”. Bem, ainda tenho a opinião de que tudo que “viraliza” é doença, então, cuidado para não se expor a este vírus.

A feiura está diretamente associada à pobreza, como apontam dois artigos sobre o tema. No site Peripécias Psicológicas e um trecho do livro de Fernando Braga Costa, Homens Invisíveis.

Na primeira referência, é interessante observar, do ponto de vista psicológico, o trauma que nossa sociedade maligna causa pela aplicação da opinião oca e generalista, e que o poder aquisitivo espalha cruelmente em forma de exclusão. Dicas de atitudes para gente feia?! Que mundo é esse?!

Na segunda, um trabalho sócio-literário que nos alerta até aonde chegamos enquanto contaminados com a letargia do mal, um devaneio burguês de separar pessoas marrons, negras ou mal cuidadas das branquinhas dos olhos claros, sem ao menos perceber o valor da diversidade.

Numa breve passagem,  o autor explica melhor o que quero dizer aqui:

A tal “gente bonita”, que tanto queremos cruzar por aí, sorri, agradece, é cortês, ouve e fala com calma, dá espaço, é sincera, e mesmo perdida em seus mais variados tons de moda, não se deixa enfeiar por qualquer olhar boçal.

Gente bonita não aponta outrem acusando-o de feio. Para manter a sua postura, orienta, dá um banho delicadeza e civilidade.

Tom Zé, numa passagem de som para o festival de Montreaux, deixou claro qual é o problema com o brasileiro comum e maioria. Neste vídeo ele deflagra todo o preconceito destilado sobre a nossa mestiçagem construída vilmente aos olhos de padrões ultrapassados.

https://youtube.googleapis.com/v/s8Pj0-mvlig&source=uds

Por isso, eu fico com o sorriso do banguelo e o sotaque arrastado do zelador, ou a boa vontade de alguém que trabalha, assim como eu, para que tudo fique mais leve e mais justo entre todos.

Fico com o meu conceito de que gente inteligente é lindo, mas um inteligente arrogante é essencialmente mais feio que um simples pobre gentil.

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