Hannah Arendt e o julgamento líquido

Em 1962, Otto Adolf Eichmann,  alto oficial nazista, era julgado no tribunal de Israel por crimes contra a humanidade, dentre outras acusações. A audiência tomava uma proporção sensacionalista com precedentes de fúria, por parte do povo oprimido na época, em sua maioria, os judeus.

 

A imprensa do mundo todo ganhava cadeira cativa para acompanhar de perto a caminhada daquele velho marinheiro à “prancha”, ou à forca.

Essa mesma imprensa definira um lado e deixou claro, mesmo sem as devidas apurações: o lado do júri de Israel, que, de forma cega e contundente, armou um espetáculo de vingança, de ódio-contra-ódio, composto de depoimentos descontextualizados das práticas atribuídas ao réu, que contava com segurança máxima e uma gaiola de vidro, para um homem foragido, enfraquecido e solitário. Não, ele não era nenhum inocente.

Apesar de todo o “circo”, a sentença já havia sido dada. Os jornalistas ao redor do mundo já sabiam o tom das notícias que dariam aos seus leitores, a exceção de uma filósofa e pensadora alemã de origem judaica: Hannah Arendt.

Uma professora universitária de alto gabarito, autora, dentre tantos outros títulos, de uma das mais importantes obras político-filosóficas, após o referido julgamento, “Eichmann em Jerusalém – relatos sobre a banalidade do mal”.

Esta mesma autora da polêmica expressão “banalidade do mal” passara por tempos difíceis, fugindo do nazismo devastador, após tornar-se apátrida.

Ela, praticamente uma exilada nos EUA (que tomou como pátria e paixão), foi convidada pela revista New Yorker para assistir ao espetáculo e depois exprimir suas impressões do ponto de vista filosófico.

Como disse o parlamentar Jean Wyllys, recentemente em sua rede social, sobre um caso declarado de violência moral:

Com esta expressão, a filósofa se referia ao mal que não é enraizado (não é radical) nem praticado como atitude deliberadamente maligna. A banalização do mal é feita pelo ser humano comum que não se responsabiliza pelo que faz de ruim ou acha que o que faz de ruim não tem consequências para os outros; não reflete, não pensa.

Arendt se referiu a Eichmann como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”; como um imbecil que não pensava; que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência – e que, por tudo isso, banalizava o mal que praticava.

A banalidade do mal pode, portanto, ser feita por qualquer pessoa carente de pensamento crítico e, por isso, insensível à dor do outro e às consequências de seus atos.

Paralelamente ao que julga o “mal”, há o mundo jurídico, que, como sabemos, é proferido por leis não exatas, subjetivas e cheias de parcialidade, manipuladas pela defesa e/ou acusador.

Somado ao fato de que a condenação do nazismo foi unânime em todas as esferas da sociedade, o mundo vivia uma ressaca pós-guerra.

Um incômodo, uma sensação de tristeza coletiva, que clamava uma resposta contra o mal que assolou milhões de famílias no mundo todo. Então, não havia exatamente um julgamento sem precedentes, sem certeza, o que incitava o mundo a punir os culpados de forma catártica.

Adolf Eichmann foi levado a julgamento em Jerusalém, por seu papel burocrático na logística das deportações em massa de judeus para campos de extermínio.

Simon Wiesenthal, judeu responsável pela prisão de mais de 1.100 criminosos, criador de um centro de documentação sobre as vítimas do Holocausto em 1947, encontrou e sequestrou (prática questionável do ponto de vista humano) Eichmann (sob o nome de Ricardo Klement) na Argentina, por intermédio do Mossad (serviço secreto israelense). O réu foi levado para ser condenado à morte em Israel no ano de 1962.

O sociólogo e filósofo polonês, Sigmund Bauman, recordou-nos a origem do pensamento em sua obra “Modernidade Líquida”, do ano 2000.

Bauman nos trouxe de volta a oportunidade da reflexão e conclusão inconteste que há vida após um primeiro pensamento.

A vida não é só um prelúdio. É composta também por versos, refrões, rimas, solos e epílogos que a tornam complexa, a ponto de não nos oferecer um desfecho sensitivo completo.

É a desmistificação do pensamento sólido, sinônimo de estagnado, ou seja, a prova de uma vida líquida, movimentada e cheia de possibilidades, além da “zona de conforto”.

Condigno aos pensamentos de Arendt, as palavras imprimiam e exprimiam o conhecimento filosófico dela, que partiu para o seu objetivo: analisar, por intermédio da razão, o veredicto.

Ainda que fosse contemporânea de Bauman, quebrou a solidez de um pensamento prático, porém tendencioso, e concluiu falhas no processo contra Eichmann, no ensaio que entregou à New Yorker.

Questionou a atitude laboral do réu, sem o isentar parcialmente de culpa, concluindo que o sistema totalitário de Hitler era o verdadeiro culpado, eximindo, ainda que involuntariamente, mas não totalmente, seus mediadores.

É importante observar que o gosto pelo mal (tortura, exclusão, racismo e desrespeito ao cidadão comum) e seus desdobramentos transformados em prática, é visível em uma esfera atual e local, haja vista as polícias militares dos estados brasileiros ou estadunidenses.

O Estado empresta este poder, por intermédio da arma de fogo, nas ruas. E nos escritórios, por decisões administrativas, sejam elas criminais ou cíveis.

O papel de Eichmann, que seguia uma lei vigente de seu país, estava ligado, no mínimo, à instância militar, por isso tinha um papel muito próximo, dada a configuração do sistema da época. Sabia o que estava fazendo e tinha papel indireto na decisão final.

Nós, cidadãos brasileiros comuns, despidos de autoridade estatal ou financeira, comumente atacamos o militarismo urbano-cotidiano, para expressar nossa insatisfação sobre as intervenções ríspidas a que somos submetidos.

É comum atribuir uma culpa direta a quem nos mostra o rosto. Ou a farda.

E ainda que munidos dos mais diversos tipos de pensamentos que podem nos levar diretamente à raiz ou à cabeça do problema, disfarçada e blindada de liderança, outros elementos cotidianos fazem com que não acessemos a reflexão que pode nos aproximar do bom senso, um julgamento, talvez, não radical.

Então, perguntemo-nos: Quem propõe o mal? Ou melhor, qual é a liderança que ensina e orienta a exclusão?

O princípio deste pensamento inconclusivo sobre o julgamento do membro do nazismo, a filósofa e ensaísta, a imprensa ou a “Modernidade Líquida”, é o filme de Margarethe von Trotta, “Hannah Arendt”, endossado pelos diálogos contidos que são aparentemente fiéis e envolventes sobre o tema.

O filme traz o julgamento gravado na época, com vários depoimentos de familiares judeus, mais argumentos de defesa do próprio Eichmann (que se dizia um mero burocrata), preso em uma jaula de vidro com três seguranças e toda uma plateia a favor de sua condenação.

Vídeos legendados em português deste julgamento, não há, porém, é possível encontrar a versão original (em alemão) e um documentário parcial sobre o assunto, abaixo, respectivamente:

https://youtube.googleapis.com/v/W1r6OP9Flq0&source=uds

Julgamento: Adolf Eichmann, o burocrata. Assassino?

https://youtube.googleapis.com/v/1msr7bWaCKk&source=uds

Documentário parcial, seguido de comentários efusivos

Mas, enquanto isso, no Brasil, em 2014…

Recentemente, caiu em nossas mãos o relatório final da comissão nacional da verdade, que investigou e apontou os líderes ditadores que, assim como o nazismo, exterminou milhares de pessoas no Brasil, além de deixar sequelas profundas em vítimas e famílias.

O interessante, como era de se esperar em pleno 2014, após 52 anos do julgamento do objeto de estudo de Hannah, é o pronunciamento da presidente Dilma Roussef sobre o próximo passo “jurídico-criminal” a ser dado com relação aos que cometeram crimes contra a humanidade:

Folha de São Paulo, Poder. Quinta-feira, 11 de dezembro de 2014, dia seguinte à publicação do relatório

         

O Estado de S. Paulo, Política. Sábado, 13 de dezembro de 2014. Eufemismos, anistias e estadismo

               
 Não creio que a linha de pensamento líquido tenha alcançado o seu ápice. Longe disso, justamente porque admite infinitas possibilidades.

A qualidade e o amadurecimento da reflexão é recheada pelo tempo, consequentemente pela experiência, que embasa a linha de pensamento científico.

Ações, ou pelo menos discursos como este – realizados por intermédio de uma liderança soberana que carrega ainda sequelas emocionais pelo objeto contido no relatório – são pílulas no cotidiano humano, que lapida a sentença, rumo á brandura social. É o que queremos? Uma vida mais justa e longe do caos reflexivo?

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