Breve história da água na década de 80 – na periferia

Então estamos todos engajados a criticar o governo atual pela má administração da água no estado de SP? É justo. Mas o que estamos passando hoje é só uma sequela, acredite. O problema só existe atualmente porque atingiu a chorosa classe média. Porque na quebrada, meu amigo, racionamento não é novidade.

Nas décadas de 80 e 90, no Jardim Santa Lúcia do Guacuri, conheci o racionamento de água com naturalidade, apesar de morar bem próximo da Represa Billings.

Mamãe acordava bem cedo aos sábados, por volta de 5h30 ou 6h, ainda no escuro, para começar a lavar roupa. Eu nunca entendia o porquê disso. Por ser final de semana, a criança gordinha que vos fala, acordava lá pelas 10h e o varal já estava forrado de roupa. Como poderia?

Acontece que fui descobrir que a água acabava lá pelas 7h da manhã, e como a torneira usada no tanque era “água da rua”, era importante que se aproveitasse a “generosidade” da Sabesp.

A “água da caixa”, aquela que era abastecida durante a madrugada, era para o banho, comida e descarga no banheiro. Já que 500 litros de água deveriam durar a semana toda em uma residência.

A “caixa” deveria ser lavada, pelo menos, de seis em seis meses, para tirar as impurezas e garantir um consumo seguro. E eu me lembro bem, era toda uma negociação entre meus tios, minha mãe e eu para lavarmos a bendita caixa.

Voltando à água da rua, era possível ver as vizinhas (minha mãe não, nunca o fez, sempre achou absurdo) esguichando água na calçada, para tirar o cocô dos cachorros, as folhas secas, as bitucas de cigarros e outros restos, logo às 6h30 da matina.

Era uma espécie de gozo ver a água saindo com força da mangueira. Às vezes, muito às vezes, no futebol de rua de domingo, havia água durante a tarde. E que delícia era dar um gole, no meio da correria, na água que saía da mangueira de umas tantas donas Marias vizinhas.

Houve um dia, do final da década de 90, até pelo menos 2014 (porque o racionamento voltou, bem antes de 2015. Antes mesmo que nas regiões de classe média que são abastecidas pelo mesmo sistema Guarapiranga / Billings), que este mesmo bairro passou a ser devidamente abastecido com abundância.

A população da região, sem nenhuma orientação, sem nenhum agente público educador, passou a esbanjar com força a água que saía de suas torneiras. Cães passaram a ter banhos mais demorados, semanais, pessoas passaram a se deliciar com mangueiras em seus quintais, em dias de calor, aquele barril que colhia água da chuva passou a abrigar o gelo para cerveja, descargas passaram a funcionar para qualquer mijadinha, e eis que a felicidade aquífera tomou conta do povo.

Hoje? Não mais. Se o poder público demorou para se lembrar dessa região, como tantas outras da cidade São Paulo, agora ele se lembrou mais rápido do que se imaginava. Fechou as torneiras daquela gente (que dobrou de número e residência, devido a ocupações irregulares, desviando assim, água e luz de forma  igualmente irregular) brutalmente, sem avisar, sem preparar e sem conscientizar.

Nem mesmo um recadinho na conta da Sabesp. Apesar de não morar mais lá, vez ou outra encontro um antigo amigo de infância para me contar as mazelas que assolam um lugar comunitário, que um dia já foi mais feliz e molhado.

Extremo sul de São Paulo. Pedreira, Represa Billings, Vila Guacuri, Santa Terezinha, todas desprezadas, ontem e hoje.

 Adendo: O mistério da lagoa (piscina) da Pedreira

Vez em nunca, a molecada toda colava na rua de cima, num lugar que chamávamos de “Pedreira”, um enorme terreno, que hoje é ocupada pela favela urbanizada Pantanal – onde tinha até campo de futebol para os mais adultos – onde de fato, fora uma antiga pedreira.

Lá havia uma lagoa (também conhecida como piscina pelos moradores da região) – descoberta após inúmeras explosões para extração mineral – linda, toda cercada de pedra, com uma água minada, verde, misteriosa, lendariamente funda e restrita pela boca do povo.

Não se chegava perto, porque sabíamos que ali era um lugar de despacho de corpos, afogamento de arquivos, por parte da polícia e de bandidos.

A dor de simplesmente olhar para aquele oásis e não poder chegar perto, era igual ao medo de se tonar mais um arquivo perdido naquela imensidão.

É possível imaginar que essa água nunca foi aproveitada para consumo humano e que esta lagoa foi aterrada pelo poder público, evitando assim, qualquer explicação futura à população ou a alguma mídia interessada.

Esses exemplos tratam-se apenas de um grãozinho de arroz no meio de uma panela de presídio. Estamos apenas, não só colhendo aquilo que não plantamos. Talvez, se o racionamento sempre existisse, multas fossem aplicadas, a conscientização fosse colocada em prática junto à educação de base, não estaríamos passando por uma ameaça de extinção de um recurso básico, rico e essencial à vida.

Então amigo, “faz favor” de colocar o balde embaixo do chuveiro, para jogar esta mesma água no vaso, após pelo menos quatro xixis, “faz favor” de lavar e passar roupa quando acumular muitas, não lave o quintal, demore mais para dar banho no cãozinho e compre água para beber no mercado (para o seu próprio bem). A culpa pode ser do “guverno”, mas a solução é coletiva.

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