Que papo é esse de seca?

Por Bruno Stankevicius Bassi

“Todo homem luta com mais bravura pelos seus interesses que pelos seus direitos.” Napoleão Bonaparte

Gostaria de começar minha contribuição ao Ser Urbano com esta singela reflexão sobre o estado semi-apocalíptico no qual a cidade de São Paulo foi subitamente imersa, com o perdão do trocadilho.

A terceira geração dos direitos humanos consagra o direito à água e ao saneamento básico como elementos fundamentais da dignidade humana. Não à toa, em 2010 a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) passou a reconhecer o acesso à água potável um direito universal.

Contudo, até o fatídico ano de 2014, o brasileiro deu muito pouco valor às duas partículas de hidrogênio e uma de oxigênio responsáveis pelo surgimento da vida neste rincão da galáxia. Sempre fomos muito mimados!

Para quem passou toda sua vida escolar escutando sobre a bem-aventurança do povo brasileiro, deitado no berço esplêndido do Aquífero Guarani e orgulhoso detentor de 12% de toda água potável do mundo, a história simplesmente não encaixa!

Onde estão as cachoeiras de propaganda de sabonete? Para onde foi a bela e curvilínea mulher ensaboando-se sensualmente ao som de passarinhos? Que papo é esse de seca?

Pois bem, amigos. Embora a ineficácia de nossos governantes tenha antecipado em vários anos a temida crise hídrica, nossa incapacidade de reagir diante dos sinais que se deixavam entrever foi – e continua sendo – clamorosa.

Enquanto as últimas crises de abastecimento de água ocorriam na longínqua Califórnia ou, no mais longínquo ainda, semi-árido brasileiro tudo estava sob controle. Afinal, crânios de búfalos cercados por moscas em uma planície africana sempre renderam belas fotografias, não é mesmo?!

Tampouco nos importava que nas periferias e favelas das grandes cidades do Sudeste centenas de milhares de pessoas já vivessem sob racionamento desde… desde sempre.

Eis que de repente… (rufem os tambores!) Descobrimos que o acesso à água deveria, de fato, ser direito universal. Como não nos demos conta disso antes?! Poderíamos ter nos preparado?

E a resposta triste e inequívoca é “sim”. Alertas não faltaram e os sinais estavam aí. Governantes ocultaram dados e priorizaram o lucro de investidores à melhoria da infraestrutura, sem qualquer grande alarde de parte da sociedade civil organizada, com raras (mas importantes) exceções.

Em um de seus rompantes de filósofo, Napoleão Bonaparte teria dito a frase que ilustra essa epígrafe. Ela vem bem a calhar. Agora que a sustentabilidade do suprimento de água tornou-se um interesse primordial, seremos capazes de sair deste triste adágio pelo qual se encaminha nossa sinfonia?

Quanto a mim, acredito que em sociedades complexas (se é que já existiu alguma sociedade não-complexa), raras são as vezes em que mudanças profundas podem ser feitas gradual e parcimoniosamente.

A evolução muitas vezes dói. Cicatrizes nos ensinam a não repetir velhos erros. Creio sinceramente que São Paulo sobreviverá. Mas não sem cicatrizes.

Para aqueles que julgam que a população não será capaz de se organizar para gerar mudanças profundas, vale recordar os acontecimentos do ano 2000 em Cochabamba, na Bolívia. Lá também faltou água. E lá também o governo de então não soube responder como deveria. O resto é história.

Mas há quem ande dizendo, com uma tremenda dor de cotovelo, que temos muito a aprender com nossos vizinhos bolivianos.

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