O “eu” e o “meu meio” no discurso político contemporâneo

Meu Facebook é vermelho. É praticamente comunista. Em tempos do discurso do “eu” e “meu” (eu viajei, eu fiz, eu fui, eu tenho, meu gato, meu cachorro, meu filho, minha mãe), a sociedade que nos entorna é exatamente a que a gente escolhe. É um espaço construído por cada um, por cada internauta.

Amigos são sempre amigos e reclamar sobre a vida para eles é sempre uma boa pedida. Somos ouvidos quando precisamos. Na política, para quem eu reclamo das atrocidades da imprensa golpista? Para pares e espelhos. Só estão lá levantando seus dedinhos azuis quem realmente concorda comigo. Ninguém discorda, nem debate.

Nas últimas eleições o ódio e a paixão beiraram a irracionalidade e os prós e contras da política, objeto direto das farpas virtuais, nunca foram discutidos.

Quem quis tocar uma vida em paz em suas redes, bloqueou o amiguinho de infância e seguiu bradando a sua absoluta verdade, envolvido por “gente legal” e livre da chateação do embate.

Então eu pergunto: de que adianta eu falar comigo mesmo? A minha preocupação eu jogo ao léu do meio social que eu construí.

As pessoas com que eu me relaciono no Facebook são praticamente o meu álter ego. E isso, politicamente, não tem efeito nenhum. A missão de disseminar o que precisamos mudar nesse mundo não é cumprida. A fábrica de panelas Tramontina continua faturando milhões.

Então, o que fazer? Seria viável contra-argumentar com links de matérias esquerdistas, invadindo os comentários das estúpidas páginas golpistas? Perda de tempo.

Isso me desperta até, uma vontade de provocar essa massa de gente que pensa igual a mim. Mas eu não consigo, porque é de questionamentos que a esquerda se sustenta e a gente acaba se entendo no final. Como agir?

O fato é que você só fala com o seu próprio umbigo. Sem provocação, sem mediação, sem difusão do que queremos realmente mudar.

A pessoa simples que você teve vergonha de adicionar, porque ela compartilha um conjunto de besteirol ou só foto e vídeo de gatinho serelepe, não é atingida pela sua linha de pensamento, porque você a bloqueou ou deixou de segui-la para não ver mais nada do que ela posta.

Enfim, “pseudo-intelectualizamo-nos” individualmente e nossa panelinha surrada nem dá um caldo assim tão cheio de sustância.

Laerte

     

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