Ciclovias: as complexas veias abertas da cidade

Em dois dias de folga, peguei a bike e fui testar a cidade. É muito bom descobri-la montado numa magrela, além dos litros de suor expelido que faz a gente se sentir melhor.

Ao selim, pude observar a cidade, seus defeitos (infinitos) e seus benefícios (diversos), que confundiam as paisagens expostas aos meus olhos. Logo, acumulei uma série de retratos sobre esse nosso complexo modo de viver em uma urbe que nos suga a paciência e a qualidade de vida, mas que ainda assim, aprendemos a amar.

Mais próximo da minha casa, saindo da Zona Leste, região do Belém, Av. Celso Garcia, não há ciclovia. Para chegar até a famosa faixa vermelha da Av. Rangel Pestana, temos que enfrentar carros e ônibus. É possível encontrar uma alternativa em alguma via paralela. Temos recursos e espaços.

Chegando ao Centro, subi a rua Augusta e, definitivamente, percebi que ela é lugar de passeio e não de carros. Caberia perfeitamente, ciclovia e, porque não, um grande calçadão, do Centro aos Jardins.

 

Vista da futura unidade Sesc, atual ocupação Pq. D. Pedro II, para o Mercado Municipal

Avenida Paulista com Rua Augusta. Vista da ciclovia em uma segunda-feira à tarde

 

Curioso é como o comerciante ainda não entendeu esse novo movimento. Eles precisam aceitar que bicicleta é um meio comum de locomoção e uma realidade viável, que foi, felizmente redescoberta, ainda que tardiamente.

É só encostar a magrela num botequim que todo mundo para de trabalhar. “Posso encostar aqui, senhor? Vou comprar uma água.” Longa pausa na resposta. Cadeado é o recurso da carteirada e pode funcionar.

Facilitar a vida do comerciante e do consumidor, fornecendo grades para “amarrar” o burro catracudo do cidadão, é uma boa pedida. Por um preço bom, as subprefeituras podem se encarregar da distribuição. Oras, quem anda de bike, uma hora precisa parar.

Ciclovia da Rua Vergueiro, que liga o Paraíso à Sé

 

Uma ciclovia na Marginal Tietê, é perfeitamente possível, nos canteiros centrais, talvez. Quem está na ZL pode se locomover mais rapidamente para a ZO, o que contribuiria para a diminuição das superlotações do transporte coletivo e aliviaria o trânsito das grandes vias.

Creio que o nível de melhoria da qualidade de vida em uma cidade se mede pelo que acontece numa quebrada. Mais ciclovias nas periferias, interligando terminais e Metrôs, é o mínimo e não mérito. Se boa parte do morro aderir, melhora imensamente a qualidade de vida de quem mora num “desacesso”.

No retorno do rolê Centro-Paulista-Bairro, quando cheguei na Tabatinguera, para quem vai para a ZL, só por deus. Com um pouco de paciência e coragem, conseguimos acessar de volta a Av. Rangel Pestana. Essa ligação ZL-Centro precisa muito acontecer.

Uma semana depois, fui à Zona Sul, pela ciclovia da Marginal Pinheiros. Uma observação: As estações de trem da CPTM não oferecem acesso às pistas. Apenas algumas, o que inviabiliza o uso diário deste recurso que provou ser eficiente para o cidadão e a administração pública.

Vista do final da ciclovia para a Catedral da Sé. A partir daqui, a ligação para a ZL é difícil

 

Um recado ~ativista~ logo no início do percurso, 
na estação Cidade Universitária da CPTM
Sinalização e trecho menos cuidado da ciclovia da Marginal Pinheiros. 
É claro que nesse caso, já passamos a parte “bonita” que beira a via 
e estamos passando pela periferia
 

Ao final do percurso, próximo à estação Autódromo da CPTM(!): me senti fora de São Paulo

 

Ao fundo, a visão que São Paulo dá as costas

 

É possível fazer amigos no percurso que beira um dos rios mais poluídos do mundo

 

Aquele contraste que já conhecemos muito bem

 

Ativismo visual. Quem anda de bicicleta sabe muito bem o significado de uma ação como esta

Quem sabe um dia, estaremos dizendo por aí, “conheço a cidade inteira porque ando de bike”? Esse assunto pertence ao cosmopolitismo, à diversidade, na tal “terra das possibilidades”. O direito à  bike e à livre locomoção deve ser garantido e tratado como um patrimônio, a marca de evolução de tempo, o ir e vir mais fácil e mais justo.

Das curiosidades positivas

A faixa vermelha, que foi pensada só para ciclista, gerou outros adeptos. O comércio percebeu uma oportunidade e os entregadores de galões de água, marmitex e hortifruti das madames, já utilizam as vias para pouparem tempo e fazerem mais entregas.

As pessoas que puxam as carroças que carregam o lixo do malcriado, também sacaram que podem encontrar mais segurança em suas andanças. Vi ainda skatistas encurtando o caminho pelas faixas vermelhas, mesmo com receio de usarem a faixa comunista (risos).

A bicicleta é um binóculo sobre duas rodas. Pude perceber muitas situações de trânsito e outras paisagens, ainda que imundas, por cima do guidão. Andar sobre outra pista abre outros olhares sobre a cidade.

Por fim, circulando sobre duas rodas de bairro a bairro, em vias que só aceitavam carros, nessa metrópole que jamais sonhou em oferecer esse tipo de sensação, deixa-nos sentindo mais paulistano ou parte disso tudo, como se tivéssemos orgulho de ser ou estar.

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