Pichação: arte ou vandalismo? Ou, “Pixo”: desmistificando a arte marginal

“…hoje a aula estava ótima! O menino disse na sala que a pichação paulistana é arte, porque possui um estilo próprio de fontes e caracteres e que nem em Nova Iorque é assim (…) e muitos na sala não concordaram, achando que isso é um absurdo, e que é vandalismo…” – este foi o relato de um ex-aluna da Faculdade Cásper Líbero. A partir daí, é importante reiterar a percepção desse assunto na cidade.

O filme de João Wainer e Roberto T. Oliveira, “Pixo” (2010), é a ponte para que se eleve a discussão e percebamos a relevância de uma imagem desgastada sobre o “vandalismo” na urbe.

São Paulo é a capital mundial da pichação. “Pixo” reconstitui a história deste tipo de intervenção. O movimento começou na década de 1980, inspirado nos grafismos do punk. Como mostra o filme, é uma forma de expressão essencialmente de jovens de baixa renda, muito bem articulados.

A colaboração de dois personagens é essencial. Mas o destaque fica para Djan Ivson, ex-pichador sob o apelido Cripta, que trocou suas ações pelo registro. Essas gravações amadoras de mais de cinco anos de pichações na cidade, contribui efetivamente para a execução do filme.

João e Roberto entrevistam pichadores e acompanham suas peripécias, sem julgá-los. Recheado de personagens, o documentário fica mais excitante a cada minuto e nos leva refletir sobre a percepção social que há sobre esse ato político.

A pichação é uma manifestação marginal heroica com princípios artísticos. É a arte empírica que está ao alcance do ser urbano periférico (geralmente) que o pratica.

Não vejo problema algum com a palavra “marginal”, porque para mim soa mesmo como “heroísmo”, dada a dificuldade da sua execução que envolve vários riscos como a escalada, a intervenção da polícia, a repugnância da grande maioria da população e o vandalismo que a cidade impõe ao cidadão ousado que a pratica, ou como a cidade o recebe e se dispõe a este ser urbano.

 

Trata-se de uma manifestação político-social, não organizada e tampouco intelectualizada, em se tratando de padrões acadêmicos. Quem o executa está devolvendo o que a cidade os oferece. É certo que, dos tempos do muralismo mexicano (manifestação artística intelectualmente politizada, da primeira metade do século passado e que revelou artistas como Rivera, Siqueiros, Orozco, Berni, dentre outros “pichadores”) até há uns 20 anos, mensagens políticas populares eram oferecidas nos muros mais hipotéticos, ao alcance da visão pública.

Hoje, o “ibope” (como se diz na quebrada) entre grupos (ou gangues, como a imprensa prefere tratar) e a aventura dos alpinismos “leparkourianos” acabam ganhando mais glamour entre os jovens praticantes. Por que, com a condição escolar oferecida aos garotos periféricos, que tipo de mensagem política rebuscada, esses jovens levariam aos muros e monumentos da cidade?

Há também os belos grafites, um tipo de arte que cresceu muito na última década. Não se trata de comparação, já que este se tornou uma arte de mercado. Tem valor e encomenda, e não pode ser confundido como manifestação social. Artistas brasileiros já circulam pelo mundo desenvolvendo seus desenhos sob encomenda, como era feito há 500 anos com as artes barrocas e posteriormente a renascentista. Normalmente quem pratica o grafite, evoluiu e se profissionalizou, oriundo da pichação.

Manifestación (1934), de Antonio Berni (argentino que contribuiu
para o Muralismo Mexicano)
Mural de Diego Rivera no Palácio Nacional da Cidade do México
Voltando ao heroísmo, a cidade de São Paulo é cortada por ruas e avenidas que carregam nomes de ditadores e personalidades político-sociais que já foram mal quistos por grande parte da população. Washington Luís (avenida), que pregava o urgente desaparecimento dos negros ex-escravos da cidade, e os Bandeirantes (avenida, monumento e centro cultural no Butantã) selvagens que executaram milhões de índios em busca de riqueza para a coroa portuguesa, estão entre os contemplados por esta reverência imposta que nós nem percebemos em nosso dia a dia.

Mesmo assim, por omissão, a história social paulistana nem sempre esteve presente nas escolas, e por isso, nada sabemos sobre esses “heróis homenageados”, o que nos sugere o “dever” de se revoltar com pichadores que “vandalizam” os monumentos e as fachadas da cidade que a gente nem sabe o que é ou para quem são.

Raras são as pessoas que ficariam felizes caso pichassem as portas de suas casas ou de prédios em que vivem. Mas não se deve culpar o “mal feitor” pela traquinagem. Nem mesmo comunicar a polícia.

Há ainda a gravidade dos acidentes, como o corrido no prédio onde eu moro, em que o garoto caiu do quinto andar enquanto escalava as paredes do edifício, apoiando-se somente em um cano d’água. Seu prêmio foi uma fratura exposta na canela e um boletim de ocorrência teve de ser registrado. Sobre como a polícia o resgatou e tratou a situação, esta não merece ser relatada.

O piche é feio e incomoda, assim como o funk pancadão ou o rap, e todos são associados ao comportamento periférico. São ruídos sociais realistas, importantes, arriscados e criativos.

A sociedade em geral, ainda sem preparo para a compreensão de valores periféricos ou marginais, oferece seu asco como protesto, demonizando esses tipos de movimentos. Mas o horror maior está inserido na plástica de nossas caretas quando os presenciamos.

A mensagem que João Wainer nos deixa em seu documentário é que inserir socialmente é obrigação de cada cidadão, motivados e impulsionados por uma liderança política, seja ela municipal ou estadual, fazendo com que a cidade pertença a todos os cidadãos e não só a quem está protegido em seu carro ou em seu condomínio médio.

Fazer com que cada um tenha a cidade para si é desafio cotidiano, é regra de um novo pensamento, ainda que atrasado conceitualmente. A cidade é nossa. Devemos tomá-la, apropriá-la para o coletivo e preservá-la, sócio-culturalmente falando.

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