Servir – Uma herança maldita da escravidão

Segundo o dicionário Houaiss, SERVIR, significa:

1.trabalhar em favor de (alguém, uma instituição, uma ideia etc.)

Exs.: o cardeal servia com fidelidade a Igreja e o rei servia à causa do partido.

2.encarregar-se do funcionamento ou da atividade (de algo)

Exs.: servia (a)o tribunal de 10 às 17 horas aqui, ser presidente é tanto administrar como servir regência múltipla.

2.1.trabalhar como empregado ou funcionário

Exs.: serviu muito tempo como enfermeiro no hospital | Ganimedes servia como copeiro (a)os deuses do Olimpo

2.1.1.fazer o serviço militar (em) ou ser militar

Exs.: que Arma ele serviu? Serviu na Aeronáutica

2.2.fazer as vezes de criado (de alguém); trabalhar como servo

Exs.: Arlequim servia (de fâmulo) a dois amos (como escravo) na chusma das galés

pagamos a esse ajudante para servir, não para ficar de conversa

3.prestar a (alguém) algum obséquio, ajuda ou serviço

Ex.: pediu que o consultasse, pois estava ali para s. (ou para servi-lo)

3.1.dar atenção a (um freguês, um cliente) ou apresentar(-lhe) o que pediu

Ex.: aguardou que o garçom o servisse

3.2.cuidar de (alguém); prestar assistência

Exs.: s. um paciente operado

ela serve de pai e mãe aos filhos

essa enfermeira não sabe servir

E mais dez aplicações rotineiras em que muitas delas se referem ao ato de se desigualar a alguém para satisfazer o interessado.

Em poucos casos esta palavrinha pode ser tida como justa, de acordo com os significados acima. Em tempos escravocratas, servir era algo sério e violento. Quem servia, estava sempre devendo e sua alma não lhe pertencia.

A sociedade (principalmente a brasileira) continua viciada em ser servida. Já percebeu como alguém se incomoda, quando não é servido de acordo com o esperado? Aquele que não foi servido brada pelos cantos do estabelecimento a sua condição de consumidor mal atendido, mesmo tendo plena consciência de que a sua arrogância o impediu que aquele impropério travestido de atendimento acontecesse.

No self-service, você pode se servir, mas colocar o prato na balança e anotar o valor, é quase um insulto. Pagar o que deve, manuseando você mesmo a máquina do cartão é inconcebível. Imagine abastecer de combustível o próprio veículo? Escolher o seu par de tênis na prateleira é motivo de desentendimento.

Lembro-me, em pleno dezembro do ano passado, fui comprar um par de calçados e a garota que me atendia se abaixou para amarrar os cadarços de um dos pés que eu experimentava. Fiquei desnorteado com aquilo e, como que com um instinto, não permiti que continuasse.

Ao chamar o táxi, fico pasmo com algumas atitudes dos taxistas. Hoje em dia, eles são verdadeiros choferes. Perguntam que rádio você quer ouvir, oferecem sinal de wi-fi, chama a todo o momento o passageiro de “senhor” (não gosto disso) e até descem para abrir a porta. Isso me assusta.

Percebo que o ato de servir, da forma vaga e descompromissada que herdamos, sobrepõe-se à forma simples do bom atendimento, aquele mais amigo e sem bloqueio. Fico incomodado quando alguém me trata como superior, rebaixando-se porque o seu trabalho o exige.

Não consigo entender como, em um restaurante, o garçom é quem coloca o meu próximo pedaço de pizza no prato ou abastece o meu copo com cerveja.

Minha impressão é que essa servidão nega a autonomia e reafirma a distância desumana entre cliente e atendente, ou prestador de serviços, o serviçal.

No momento em que a ficha cai “eu sou o cliente e quero ser servido” e “eu estou servindo e sou pago para isso”, a tensão entre esses que deveria ser pares em busca de um objetivo comum, está selada. Daqui para frente, contaremos com a sorte para que esta relação seja breve, sem contato crescente.

Admiro aquele que não se deixa parecer servo, e ainda sabe fazê-lo de maneira sutil. E não posso deixar de ressaltar a importância daquele que não se deixa ser desonestamente servido, que chama a relação para próximo e faz um amigo a cada vez que é atendido. É aquela coisa toda da gentileza.

O sorriso, o bom dia, o boa tarde e o até logo, fica a mercê das relações construídas pelo capitalismo. As relações comerciais passaram a esfriar aquilo que se chamou, um dia, de “freguesia”.

Essa cultura “servir bem para servir sempre” é mesquinha e elitista. Que arrumem outra frase de efeito, porque ninguém nasceu para servir ninguém. Existimos para viver bem socialmente e colaborar para que a estrutura social funcione de forma pacífica e cortês. Os tempos de servidão – e todo o seu vocabulário relacionado – já se foram há muito tempo.

E se você acha que estou exagerando, repare bem na imagem abaixo. Quem está servindo? Fique tranquilo, o site (revista) já foi notificado pelo mau gosto criminoso que cometeu. Afinal de contas, estamos aqui, juntos, para que esse tipo de cultura seja exterminado de uma vez por todas.

servir

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