Rap: o orgulho da música brasileira contemporânea

De popular o R.A.P. tem tudo. De essência, ele carrega tudo o que a música precisa: ritmo e poesia, e ainda é pretencioso o suficiente por levar tal nomenclatura, com certa propriedade.

Se alguém acredita que a ultrapassada MPB anda com a sua criatividade encostada, o mesmo não se diz sobre o RAP. Não há o que dizer. As casas de shows (das mais elitistas às mais “alternativas”), os parques, os festivais, os centros culturais e os fundos de quebrada estão sempre lotados.

O gesto do punho, com a mão aberta, descendo e subindo, marcando o tempo da batida da base, é um só para centenas de jovens, não necessariamente rappers, mas também hipsters, hypes, culturetes ou coadjuvantes dos versos que contam as histórias de uma grande massa de cidadãos excluídos. São palavras duras que desmascaram a realidade que ninguém quer ver e nem ouvir.

Mas porque o rap é cada vez mais bem aceito e vem ganhando cada vez mais adeptos, sem distinção de classes, cor ou crença? Se procurarmos a fórmula exata, não chegaremos a lugar algum. Mas porque não levantar alguns fatores?

Enquanto a cultura hip hop se renova, sem perder o pulso sampleado das bases dos grandes mestres da música negra, outros gêneros ficam aquém da inovação e criatividade, muitas vezes, por tantas referências, sem direcionamento, sem aproximações de estilo.

Ter diversas influências é sempre muito bom, mas o novo artista deve ser mais objetivo com o seu estilo, com a sua expressão, e o rap e quem o faz, não deixam de inovar, em todos os sentidos.

A profissionalização do RAP se deu por interesse de grandes músicos e produtores, por perceberem que entre as rimas, sempre houve um rico material musical e literário. Refrãos ganharam identidade, enquanto o RAP se fortaleceu como música propriamente dita, em termos de composição.

Ainda falando em profissionais, até mesmo o marketing do hip hop é de dar inveja em muitos diretores da grande publicidade. A geração Y, com gíria e responsabilidade, colocou seu próprio público e novos simpatizantes lado a lado, falando a mesma língua e comparecendo a shows cada vez melhores.

O respeito entre os aspirantes e a velha guarda do “manismo” também é outro fator no mínimo admirável. Hoje quem está subindo ao palco reverencia suas influências e é abençoado e respeitado por quem começou à margem da música nos anos 80, no Brasil. E por isso não se tornou efêmero, não caiu nas armadilhas do modismo e ocupa espaço na história da sociedade contemporânea, carimbando o seu passaporte para o que chamam por aí de “cultura”.

O ritmo e a poesia suburbana têm ainda muito do que se orgulhar. Talvez seja o único gênero que sempre foi independente em sua trajetória de negócios. Nunca precisou e nunca adotou uma gravadora que impulsionasse vendas de discos ou lotação de shows.

E se um dia essa batida versada agonizou, não soubemos notícias. Sofreu tanto quanto a periferia, dentre represálias e boicotes, mesmo assim, manteve-se imune e continuou a sua caminhada, porque esse é o seu lema.

Identidade, linguagem muito bem definida, polêmica, provocação, criatividade, habilidade, popularidade e energia. É tudo o que o rap sempre teve, é tudo o que a música precisa e é muito dos que nos move a um show, ou às redes, para descobrir aquela nova batida perfeita.

O RAP continua lindo e cheio de vontade, porque, parafraseando Rashid, o terceiro garoto dessa nova safra de rappers (da direita para esquerda na foto abaixo), “…todo dia é dia de virar a mesa”.

Rashid, Rael e Emicida.jpg
Rael, Emicida e Rashid (da direita para a esquerda) em show na Virada Cultural 2014, no Sesc Pompeia. Foto: Lauro Lisboa Garcia

 

 

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