Dilma e sua representação feminina incômoda

E a ausência de respeito mínimo para com a mulher, a mãe, a avó, a idosa, a presidentA do Brasil por quase seis anos

Concordo com os dois textos (A máquina misógina e o fator Dilma Rousseff na política brasileira e Presidenta Dilma, politicamente violentada e invejada) da Marcia Tiburi, sobre como o machismo e a misoginia presentes na sociedade ajudou a afastar a presidenta eleita legitimamente pela maioria da população brasileira.

Presenciei (infeliz e necessariamente) as mais perversas atitudes com relação ao trato indireto para com a mulher mais poderosa do Brasil, pelo menos na teoria. Mulheres e homens desceram ao nível mais baixo para se referir a quem tentava driblar a máquina machista e almofadinha da política brasileira para tentar administrar esse complexo país, diverso e controverso.

O desrespeito da própria “classe” beira o absurdo. Uma mulher que chama a Dilma de puta ou de vaca, não respeita a si mesmo. Nega o seu próprio papel na sociedade, que há muito tempo tem uma relevância maior que a estimativa oferecida pelo mundo macho. Essa pessoa não se aceita protagonista e prefere viver à sombra do homem, ainda, “dominante”, infelizmente.

Já o homem que grita na janela ou em seus grupos de What’s Up, “chupa Dilma”, tem seu caráter posto em questão, mas este não o percebe. Sua limitação incivilizada o incapacita para relações humanas essenciais da vida de um cidadão comum. Ser pai, filho, irmão, namorado, amigo ou esposo, é um tormento para outrxns e para si.

Ao comemorar como um gol ou um título de campeonato (sempre o futebol ensinando e despertando, não raro, o que há de pior em uma pessoa) se utilizando do fato da queda da representação máxima de uma nação, na figura feminina, este homem transparece a sua falta de habilidade em viver em sociedade. Há todo um trabalho de educação a se reiniciar, dentre terapias, acesso a experiências, etc.

A ex-presidenta perdeu no ringue da política para Michel Temer e Eduardo Cunha, por pontos técnicos que só juízes descompromissados com a ética foram convalescentes e engoliram um golpe baixo de mãos dadas com a imprensa. Não quiseram enxergar a falta grave e levaram grande parte do público ao delírio, ao devaneio da comemoração, como se quisesse ver a poça de sangue ao final do último round.

Nem assim, as pessoas que discordam da representação desse circo midiático e que vem ocupando as ruas do país, adotaram ao golpista, insultos de baixo calão. Não ouvi sequer um filho da puta, um cuzão ou qualquer xingamento que o valha. “Golpista”, para ele, talvez caiba mais que todos os palavrões juntos. Representa o desprezo máximo de quem ainda não engoliu a traição do bandido.

Pessoalmente, a presidenta que eu ajudei a eleger (mesmo contra a minha vontade – e talvez eu tenha mesmo adiado um golpe contra o país), representou uma história de luta, porque li e procurei saber sobre ela. Vi na figura dela, o tempo todo, a representação materna direta, da mulher que não se deixa abater e se faz reconhecer como quem merece o máximo respeito, não só por estar no topo de uma nação, mas por todo dia, ter que engolir o ódio dos brancões engravatados invejosos.

Dilma reforçou, ainda que com certa limitação na sua forma de governar, o estímulo à autonomia das minorias. Foram, nos seus atrapalhados discursos, que eu percebi o feminismo necessário acontecendo das time-lines para as ruas. Mulheres se impondo e exigindo os direitos que sempre lhes foram negados. É uma guerreira e para mim, sempre será o “Coração Valente”, mesmo que esse termo seja só publicidade de partido, porque mesmo que os livros neguem, eu nunca vou negar. E quem for contra, é porque ainda não está devidamente preparado para entender o que ela nos ofereceu: outra e nova forma de ver o mundo e o papel igualitário que deve ter uma mulher na vida. Obrigado, Dilma.

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