A era da música de plástico

Há tempos estamos inseridos à era plástica das linguagens artísticas. No sentido mais artificial da palavra. A cultura popular e a arte ganharam outra conotação. O que era tradicional foi transformado em artigos embalados que despertam o desejo de aquisição. Tomou forma, foi promovida a consumo e conquistou a atenção até dos mais conservadores, hoje, donos das principais máquinas culturais (ou do entretenimento) que contribuem para o giro da economia, gerando tendência e valor para um povo ou um determinado estrato social.

Quando se fala em “embalagem”, seja “lata” ou “plástico”, para o meio cultural (pop – diferente de popular), associa-se direta ou indiretamente aos recursos tecnológicos “evolutivos”, associando-se às suas respectivas funções que é a de maquiar, plastificar, embalar ou enlatar de forma sedutora a linguagem cultural popular ou tradicional. É aqui que o termo pop toma forma e surge como protagonista em meio às tradições de uma sociedade, em detrimento da preservação de sua história, seus valores e sua identidade.

Não há dúvida que a música e o cinema são os maiores alvos da indústria do entretenimento. Mas como estamos aqui para falar de música, vamos despir a sua embalagem e jogá-la em nossos pratos (limpos). Admitamos todos e há de se perceber que criar outros gêneros ou estilos, atualmente, sem que se perca a identidade cultural primária, não é algo assim tão simples.

Dada a evolução da cultura por sua fusão com e a consequente modificação das linguagens artísticas, tudo já sofreu transformação. Tudo foi reinventado. Poucos gêneros criados mantiveram suas raízes ou respeitaram tradições de forma a se manter dentro de suas devidas características. E que bom.

Mas ao contrário, devemos nos perguntar: como se constrói uma música “anti-cultural”? A resposta é fácil: com refrãos fáceis, ruídos palatáveis e com apelo intensivo de mídia. Oras, é deste tipo de produto – também – que vivem os veículos de comunicação.

O rádio foi o primeiro grande responsável pela difusão dos produtos desta indústria. Até a década de 50, cantores, calouros e outros poucos metidos a artistas, ocupavam as programações das rádios mais populares do Brasil. Eram pessoas “descobertas” na raça. Mas a cultura popular, agarrada à tecnologia estava em curso evolutivo, sendo ainda objeto pouco mítico, de adoração comum, mas ainda sem alcance idólatra.

Eis que surge então, a prática do “jabaculê”, incentivado pelas próprias gravadoras de discos. O empresário, distribuidor do disco, passou a “agradar” financeiramente as rádios para que estas pudessem tocar o seu próximo “sucesso”. Prática que após pouco tempo, virou regra, e “ai” da gravadora que não pagasse o criminoso “jabá”. Até então, artistas continuaram sendo artistas, dirigidos por artistas que não eram ainda meros operários vendedores de produtos sonoros. Ainda com pouco lobby nesse meio, a indústria fonográfica registrava e distribuía sonhos que traçavam a história da cultura no mundo.

Posteriormente, com maior força no final da década de 60, início da de 70, ficamos vendidos diante da poderosa máquina de fazer sucesso, a TV. Com a era dos festivais no Brasil, difundiu-se de forma lúdica a música popular brasileira, ainda não tão conhecida com o rótulo abreviado de MPB.

Mal sabíamos ali que as tradições de diversos cantos do Brasil encontrava o rock, o ruído rebelde que já emplacara sua história, transformando tudo aquilo em elemento de paixão, e hoje em dia, em objeto de pesquisa acadêmica. Falo, principalmente, da Tropicália.

E foi no final da década de 70, início da de 80, que o país deu o primeiro passo para o grande sucesso da indústria do entretenimento. Um passo com investimento agressivo e irreversível, embalando o nosso maior xodó entre as linguagens artísticas.

O advento tem dono e produto: Nelson Motta criara Dancing Days, com refrãos pegajosos, mulheres bonitas que dançavam hipnoticamente, uma casa de shows e, pasme (!), uma novela que carregou o nome do grupo. Daí em diante, diretores de marketing passaram a ocupar os cargos artísticos, oferecendo em larga escala, como numa indústria de brinquedos, o que haveria de mais plastificado na música brasileira pelos próximos anos.

Sertanejo, lambada, sambas enredo, charm e tantos outros subgêneros, deram continuidade ao mercado do entretenimento via TV e rádio. Hoje em dia, com a internet, é o que acontece com os funks (ostentação, pancadão, etc.). Foram e são como grandes parques de diversão. E ainda são, para a nossa sorte, efêmeros. Caem no esquecimento, no limbo do enjoo mútuo.

Aquelas flores naturais que regamos em casa, em nosso vasinho, fazem com que tenhamos o devido cuidado para que continuem vivas, a colorir e harmonizar o nosso ambiente. E morrem, derrubando suas sementes na terra para que outras plantinhas nasçam. Já as flores de plástico, continuarão recebendo a poeira da faxina, até que um dia, nos desfazemos daquele objeto que nada nos agregou durante o pouco tempo que esteve ali, inerte.

Quantas pessoas nós conhecemos, por exemplo, que guardam discos considerados clássicos, por décadas? Pode ser sim uma relação pontual com o objeto cultural, mesmo assim, a música deste artista cultuado perdura por anos, não caindo então, na efemeridade pessoal.

Basta ver e ouvir nas programações corriqueiras da TV brasileira, sejam premiações internacionais ou simplesmente aparições descompromissadas, as apresentações musicais – às vezes em conjunto, às vezes solos – músicos se auto-acusam, utilizando-se do recurso mais ofensivo (ao público) e desastroso (ao artista) para o amante da canção: o maldito play back, criado pela TV.

O glamour exagerado do artista enlatado é outra síndrome da era da música plástica. Esta figura que agora desfruta de admiração social – e que carrega consigo o sucesso como fórmula resultante de “seu trabalho” – é altamente inflamável e exigente. Circula pelo mundo com mais direitos do que a normalidade social, e o seu público o idolatra mais que sua própria família, mais que a si mesmo. É claro que a generalização não cabe aqui.

E ainda há dúvidas sobre a era das músicas, dos festivais, dos discos (ainda que virtuais), das artes e até mesmo dos sentimentos de plástico? É bom ser fã, desde que seja algo vivo, orgânico, acessível, realmente artístico.

Assim como o fã clube de Jesus Cristo, preocupa-me o exagero, a perda da linha tênue entre o bom senso para o consumo da música e a perda da sobriedade necessária, que pode nos levar mais longe – para dentro ou fora de si – a partir da degustação do encanto extasiado da canção.

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