O que escondem (ou transparecem) as palavras de baixo calão?

palavroes

Sim, nós vamos descer o nível aqui, para poder avaliar de onde vem os tais ‘palavrões’, que gostamos tanto de falar, ao passo que, são tão demonizados por conservadores e recatados.

Todo palavrão é fruto de uma mistura de tabu com homofobia ou misoginia. Utilizamo-nos da obscenidade literal para expurgar algo de nossas vidas, para comemorar uma conquista ou imprimir distância àquilo que o “diferente” pratica.

De onde você pensa que vem um “vai tomar no cu”? Porque diabos esta expressão é tida como ofensa? Quem disse que “tomar no cu” ou “se foder”, que é a mesma coisa, é tão ruim assim? Na lenda urbano-católica, quem pratica tal ato obsceno e pecaminoso? O gay. Ou a mulher, se for classificada “de baixo nível”. Por isso, o “xingamento”! Porque ser gay é “ruim”, incomoda. E a mulher, claro, nada pode fazer de ‘errado’ perante a sociedade patriarcal.

O sujeito “cuzão” ou “arrombado”, só pode, fisiologicamente sê-lo, se o mesmo “toma no cu”, ou se foi ali “se foder”, como bem o mandaram. E no senso comum, quem o pratica? O gay. Ou seja, temos outro exemplo de homofobia gratuita contra alguém aleatório que está lá, “de boas”, usando devidamente o seu corpo para o seu inquestionável bel prazer. E ninguém tem nada a ver com isso.

O “filho da puta” é a misoginia pura. O “(vá para a) puta que (o) pariu” acompanha. Puta ou prostituta é o mais baixo nível de mulher para a sociedade contemporânea. Os homens adoram culpar a puta por um ser asqueroso existir, ao mesmo tempo em que amam usar de seus serviços sem que ninguém saiba. É o segredinho masculino mais ordinário que existe (putz, contei!).

Quando alguém considera algo extremamente legal, solta “caralho!” ou “cacete!”, que representam o “pau”, o pênis. Porque quem manda é o falo. É a onipotência do pênis, sendo objeto de adoração nas comemorações do cotidiano. É o mundo girando em torno de uma rola enorme, símbolo máximo do macho “civilizado”.

Uma coisa “foda”, talvez seja o que tenha mais coerência num sentido social e de desejo mútuo, sem limitações, sem contraindicações.

“Essa porra!” Quem nunca? De onde vem a porra? Do pênis. É uma ejaculada. É um transtorno tão grande na vida do machista, o fato de ele não gozar o tanto que gostaria, que o sêmen está sempre presente em seu vocabulário, quase que nas papilas degustativas. Um pequeno prazer se expõe neste pequeno momento de adoração.

E “viado”? Não há nada mais homofóbico e infantil que xingar alguém de viado ou dizer que alguém o seja. No cotidiano, na conversa de bar, todos expõem a sua aversão à possível orientação sexual de alguém, que não necessariamente é o xingado direto. Por “culpa” de um terceiro, a expressão ganha conotação de um sarro desnecessário.

Além de todas essas analogias diretas que saíram do universo do preconceito e que agora frequentam o palavreado do cidadão comum, há paralelamente, o tabu. O assunto intocável. Veja se alguém, rotineiramente (com exceção de situações íntimas, é claro), toca no assunto sobre como “foder” ou se a “porra” é mais espessa, ou ainda procura saber se tal mãe é verdadeiramente “puta”, e caso seja, o que implicaria na personalidade de um indivíduo para que este ganhe tal tarja?

A revista Superinteressante apresentou uma matéria científica sobre o assunto. Ela romantiza no início do texto, sugerindo a intimidade absoluta – em alguns casos – de quem troca palavrões. Uma possível aproximação “mais calorosa” entre as pessoas. Pode até ser, mas o preconceito está instituído nas “entre-letras” de cada termo.

Em outra parte do texto, a cultura do estupro aparece como desencadeadora do “foder alguém”.

Pegar mulheres à força permitia que um macho fizesse dezenas, centenas de filhos, coisa que contou pontos no jogo da evolução. Já para as mulheres isso é o inferno. Então selecionar o pai é fundamental, e engravidar de alguém que a violentou, um baita prejuízo.

(…)

O estupro homossexual sempre foi, e segue sendo, uma forma eficaz de deixar claro num bando de machos quem é o chefe – a violência sexual dentro dos presídios está aí para provar. A coisa é tão arraigada que até uma palavra inocente hoje, como “coitado” ou “tadinho”, sua variante mais fofa, significa “aquele que sofreu o coito”.

A ofensa, claro, não vive só de palavrões, mas do que cada palavra, em seu contexto, significa. Se sua consciência está livre do que mais tentamos combater neste início de século, procure o palavrão que lhe caiba e que não deturpe a própria palavra ou a condição de alguém, e aplique-o. Não há problema algum.

Mas se ideia é perdurar esse tabu burro, europeu-católico, melhor rever o que melhor pode ser dito, para que o seu semelhante não seja diminuído pela inércia da língua, e que você possa se resolver quanto às suas perspectivas sobre si mesmo, diante de suas expressões adotadas.

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