Na sala de espera do hospital

Na sala de espera do hospital, os entretenimentos continuam os mesmos. As várias revistas velhas, dentre as quais Veja, Isto É, Dinheiro, Caras e Exame, para folhear e a TV (que faz mais sucesso que as outras opções) que chama a senha do atendimento enquanto exibe, em volume mínimo, o canal mais assistido do Brasil. Globo.2016-10-17-10-38-28

É de manhã e acompanho os dois principais programas jornalísticos. Pacientes e acompanhantes alternam seus olhos entre seus smartphones e a TV, igualmente mudos. Há quem esteja boquiaberto, de olho naquilo que comunica dinamicamente por imagens, apenas.

Mas também miramos a tela na esperança de que dois dos números de senha mude, como numa loteria, mesmo sabendo que não precisamos olhá-la, já que a máquina emite um som eletrônico estridente de duas notas, uma aguda e outra grave, em um longo segundo.

Enquanto ensaio o início dessa crônica sociopática, acompanho a reportagem sobre o aumento do preço dos combustíveis. Uma repórter de etnia nórdica dá voz à classe média brasileira que sofre com uma de suas piores agruras nesse momento, ao mesmo tempo em que entrevista homens brancos e bem arrumados em seus carros. Os entrevistados gesticulam suas preocupações diante do horror dessa exclusão social descarada.

Ao fundo a cena é composta por postos especializados com seus novos preços e funcionários mudando-os para mais caro. Uma ciclovia escapa na imagem.

Hora do intervalo e o primeiro reclame é de um carro da Ford. Homens Vikings, lindos, provocam explosões coloridas abrindo espaço para uma atriz, igualmente linda, que pilota o seu veículo sorrindo por entre a pirotecnia, exibindo um sorriso brilhante, bem disposto em lábios sensuais cuidadosamente tratados com o melhor batom cinematográfico. Gozado. No tempo em que eu assistia à TV, dirigir carros era coisa para homens. Os tempos estão mudados.

No reclame seguinte, pessoas brancas, bem cuidadas e arrumadas mostram-se felizes em serem atendidas por um plano de saúde. É vida que segue.

Mais uma senha é chamada. Distraio-me, mas volto a observar a TV. Na primeira matéria, sobre emprego, não entendo muito bem o contexto. É composta por cenas de gente uniformizada trabalhando em obras, nas ruas, em prédios, etc. O depoimento talvez seja de um empresário, um especialista ou até mesmo uma autoridade, quem sabe? Homem branco, de terno e gravata, barba afeitada e aparentemente bem articulado. Corta.

As próximas imagens são sobre os prêmios da revista Isto É. As grandes personalidades políticas do ano que premiaram grandes homens brasileiros. Entra o papagaio de borracha e chamam a minha senha.

A emissora assume, neste ato, o porquê da sua existência. São apenas minutos para perceber o valor exercido de uma mídia eletrônica de longo alcance em uma sociedade muda e quase ausente de si.

Neste hospital transitam entre três e cinco mil pessoas por dia, dentre pacientes e acompanhantes. Certifiquei-me de que a TV fica 24 horas por dia ligada no mesmo canal, em várias salas. As maiores têm até três aparelhos. Claro, mais comodidade para o paciente-cliente que aguarda tranquilamente e distraído a chamada da sua senha.

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