Caminhada à paulistana

Enquanto Kátia toma mais uma dose de hercept (uma certa medicação pós-quimio), saí pra sacar uma grana, que vou usar para pagar o cuidador do Billy; a Dolores, que vai dar um tapa em casa, e mais um pouco pra gastar nos primeiros dias de Bahia. Férias.

O saque seria da Caixa Econômica Federal, mas esse banco é assim, você vê no mapa, mira-o, mas não pode contar com ele, e o que seriam dois quarteirões, resolvi nem contar.

Caminho então da Rua Castro Alves, próximo à estação Vergueiro do Metrô, até quase a Praça da Liberdade, onde encontro um Supermercado Extra, que abriga um caixa eletrônico “24 horas”. Detalhe: o estabelecimento fecha às 22h. 

Durante essa caminhada, é hora da saída do trabalho e as calçadas estão cheias de gente, indo e vindo. Passando por uma das saídas do Metro São Joaquim, as trombadas são inevitáveis, e é nesse bololô de transeuntes que eu me sinto sozinho, porque quero, e porque também me agrada caminhar e observar o movimento. 

Os paulistanos sisudos acendem cigarros, compram coisas dos ambulantes refugiados, entram e saem de pequenas lanchonetes; estudantes param nas portas das universidades para conversarem, fumando ou não, bebem suas cervejas e gargalham estridentemente, enquanto um ou outro deles conferem de cabeça baixa seus smartphones. Isso é na ida. 

Uma pessoa está na minha frente sacando dinheiro no pequeno caixa enquanto aguardo a uma certa distância e o segurança me olha feio. É o trabalho dele.

Olho para todos lados, já que a quantia a ser sacada é alta e, desconfiado que sou, não facilito. Devolvo o olhar feio ao segurança. É a minha defesa.

Efetuado o saque, passo em outro banco, Bradesco, para complementar a verba. A história se repete com o segurança local. Parece que, quando nos olhamos feio um para o outro, sentimos-nos mais seguros, como se um protocolo pré-estabelecido estivesse sendo cumprido.

Caminho em direção ao endereço de origem, com o dinheiro distribuído pela vestimenta que me protege desse frio de fim de tarde, no primeiro dia oficial do inverno, solitariamente consciente e satisfeito por este sentimento que permite, em poucos minutos, ver pessoas que não estou vendo, mas que lembram outras do meu convívio.

Vejo pessoas que eu não gostava, mas que quase cumprimento. Não são elas, mas me fariam uma pequena companhia com qualquer comentário esdrúxulo ou aperto de mãos. Na maioria das vezes, vejo homens “conhecidos” e começo um jogo comigo mesmo, oferecendo ao meu imaginário, pessoas legais.

Vejo um xará do meu trampo, o sorriso era o mesmo. Vejo o Devanilson, que em toda companhia oferecida é uma pequena festa de risos. Vejo o Phil Veras, cantor e compositor maranhense, novato e competente. Vejo, talvez, um haitiano (ou senegalês, ou nigeriano), jeito de refugiado, vestimenta colorida, étnica. Um sujeito sorridente aos seus companheiros e a um cliente. Ele me lembra um ator que eu gosto muito, mas que eu esqueci o nome. Ele vende algumas peças de roupas espalhadas pelo chão, nada que ele usasse.

Mas rapidamente vejo o chão, e nele, um rolinho de notas de dinheiro. Vejo de onde caiu, do bolso do homem que sorri deliciosamente ao seu proponente. Olho para trás para ver se posso parar ou devo desviar. Tranquilo. Agacho-me para recolher o que vejo cair, na esperança de que ninguém me veja, pois quem vê, na história de hoje, sou eu. Além do mais, legal mesmo é entregar o dinheiro achado em segredo, como uma espécie de orgulho por tê-lo feito, e ainda olhar no rosto do cidadão, sorrindo, entregando e traduzindo a situação com o olhar dizente “tome mais cuidado, se fosse outro, talvez não te entregasse”.

Retorno ao passeio movimentado e encerro o jogo sem perceber. Não vejo mais ninguém e me concentro em reclamar em silêncio dos carros que viram nos quarteirões com pressa e apressando o pedestre que atravessa na faixa. Amaldiçoo cada um; passo por mais galerinhas em frente a bares e adentro ao hospital, para encontrar a sobriedade e anotar tudo isso, antes que eu esqueça.

Um comentário sobre “Caminhada à paulistana

  1. Nada como o cotidiano! Sabe o mais louco! A gente sempre acha que é o único que cria jogos e desafios mentais sem nenhum sentido! Abraço e boa viagem! Aproveite a Bahia e seu calor!

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